Os culpados

Olhando para os balanços de final de ano que a Nação tem vindo a fazer ao longo dos últimos anos, chegamos à conclusão que esses balanços são cada vez mais deprimentes. A tentação de procurar bodes expiatórios (ou bodes respiratórios, se essa análise fôr feita pelo saudoso João Pinto) é evidente e acaba invariavelmente por um apontar do dedo indicador (ou, nalguns casos, do dedo do meio) ao Primeiro-Ministro que ocupa o cargo nessa altura. Esta fotografia lança as culpas aos três homens que estiveram à frente do país antes de Passos Coelho e foi sendo escrita em períodos diferentes, ainda que sempre pela mesma pessoa. Neste caso, o epíteto lançado a cada um é um lacónico “cabrão” e haveria certamente mais para dizer, mas não é menos verdade que nenhum deles foi beneficiado ou prejudicado em relação aos restantes. Passos Coelho acabará, mais cedo ou mais tarde, por ter o seu nome nesta espécie de “hall of fame” da vergonha, provavelmente com direito a semelhante insulto.

Mandar rimas

À falta de murais para o período natalício, importa recordar os velhos apelos para a paz no mundo – utilizados habitualmente nestas alturas ou por ocasião do concurso para Miss Universo pelas suas concorrentes – sob a forma de um simples apelo: rimas em vez de bombas. Escrito em Inglês, para todos perceberem. Uma boa rima pode desencadear uma mudança no mundo e uma má rima, na pior das hipóteses, só poderá provocar o riso. Melhor do que bombas, em todo o caso.

Tropeçar

Tropeçar numa frase destas é dar de caras com poesia de rua pura: o uso da figura de estilo, a apropriação desavergonhada do espaço público quando apenas estarão envolvidas duas pessoas ou o desejo assolapado de alguém querer dizer o que vai na alma, sem medo do que terceiros possam pensar. O uso rebuscado da metáfora sugere alguém meio desajeitado ou incapaz de carregar tanta ternura às costas.

Muros brancos

Se andar por aí a fotografar frases de indignação escritas nas paredes fosse um negócio, diria que os tempos estão bons para o negócio. Em tempos de crise e de incerteza quanto ao presente e ao futuro das pessoas e do país, há certamente mais gente a exteriorizar esse descontentamento e as paredes são também usadas para o testemunhar. Se sempre foi assim desde o 25 de Abril, agora não seria diferente. Daí que quem se deu ao trabalho de escrever “Muros brancos, povo mudo” nesta parede do Martim Moniz – ainda que não esta expressão já tenha sido usada noutros contextos – tenha captado o espírito destes tempos em que haverá tanto para dizer, ou, neste caso, para escrever.

Vozes da rua

Começa como uma brincadeira: os muros pintalgados ou escrevinhados nunca terão gerado em mim indiferença –  a começar nos grandes murais políticos que ainda restaram muitos anos depois dos tempos conturbados da Revolução  – , mas quando se começa a ter à mão um telemóvel com câmara fotográfica sempre que se sai à rua, é mais fácil captar aquilo que chama a atenção. Junte-se a isto o andar muito por Lisboa a pé e em transportes públicos, aliado a um olhar clínico e um sentido de oportunidade relativamente aguçados, e está criado o caldo ideal para se ir criando um crescente arquivo de fotografias. O destino inicial de parte dessas fotografias foi mais ou menos o mesmo que a generalidade das fotografias tiradas pelas pessoas hoje em dia: o Facebook. As reações que ia recebendo, bem como a perceção de que a grandiosidade do que se faz por essas ruas merece mais do que um álbum criado para os amigos, fizeram com que um blogue acessível a todas as pessoas fosse um espaço mais adequado para essas fotografias.

O Vozes da Rua tem como objetivo colecionar aquilo que chama a atenção no espaço urbano: as frases escritas nas paredes, os stencils repetidos à exaustão, os graffitis bem produzidos, a intervenção urbana digna de realce ou as pinturas murais a recordar tempos em que a luta política se fazia no espaço público. Aquilo que é feito por todos aqueles que, não obstante os meios tecnológicos que hoje em dia existem, escolhem o espaço público para serem ouvidos: poetas, indignados, gente com sentimentos à flôr da pele, anarquistas, artistas com talento ou gente com imaginação a mais. No fundo, as vozes que se fazem ouvir nas ruas, quebrando a indiferença e o anonimato associadas aos grandes espaços urbanos.

Ainda que seja essencialmente um repositório de fotografias tiradas em espaço público, essas poderão ser um ponto de partido para toda uma hermenêutica – atente-se no piscar de olho a uma certa intelectualidade – ou limitarem-se  a ocupar todo um post . Errado será, todavia, conceber este blogue como um local de excelência na arte de tirar fotografia: os meios técnicos que tenho à disposição não me deixariam fazer uma promessa dessas e a arte e engenho para tirar boas fotos também não estão no meu (diminuto) rol de competências.

Por último, uma ressalva: não há intenção de lançar qualquer debate sobre a diferença entre o vandalismo e a arte ou sobre qual o contexto em que deveria ser permitida uma apropriação do espaço público. Como qualquer cidadão, terei uma opinião minimamente fundamentada sobre o tema – como todo o cidadão português, tenho uma opinião fundamentada sobre todo e qualquer assunto, desde rendas de bilros até à resolução da crise da dívida – que inevitavelmente acabarei por explanar.

Gonçalo Gonçalves