Imaginar

Andava há uns dias atrás num raide fotográfico quando me deparei com esta frase, que me suscitou a curiosidade. Andei pela Internet à procura, não fosse ela já ter sido publicada no passado e remeter para um poema ou uma canção conhecida. De facto, não tinha sido. A frase em si remete certamente para a ideia de haver relações perfeitamente estruturadas com outra pessoa mas no sentido oposto ao que nós chamamos de amizade. Diz-se que não é fácil manter amigos, mas ter alguém a quem possamos chamar com propriedade de inimigo não estará abaixo em matéria de dificuldade. Implica haver uma situação ou um conjunto de situações que motivam criar um atrito e uma antipatia tal que façam tudo descarrilar para o campo do conflito. Eu, pessoalmente, não serei o maior especialista em criar amizades, mas reconheço uma incompetência ainda maior em estabelecer inimizades, a não ser que haja algum meliante desta vida a querer fazer-me a folha, sem eu saber. Voltando à frase, trata-se então de virar a moeda ao contrário e lançar o cenário hipotético de esse mesmo inimigo, como que por magia, se tornar o nosso melhor amigo. Para quem tenha inimigos daqueles à séria e como deve ser, é tudo uma questão de conceber mentalmente o cenário. Isso ou evocar a política externa dos Estados Unidos que, ao longo da história, se foi sempre baseando em fazer dos inimigos do passado os amigos do presente e vice-versa.

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Sabotar é viver à grande

Uma razão pelo qual os anarquistas desta vida dão um contributo inestimável para a poesia de rua é pelo facto de saberem trazer para o espaço público frases que misturam, em doses sábias, a indignação e a originalidade. Colocada numa zona habitacional de Lisboa, embora um bom spot para tirar fotografias no espírito deste blogue, esta frase lança o repto à sabotagem. Arrisco a sabotagem do sistema capitalista e da Democracia, tal como os conhecemos. Para, a partir daí, viver à grande. Como se da ação de destruição saísse a solução para inverter a ordem das coisas e todos passássemos a viver como uns lordes, a partir daí.

A tristeza de Lisboa

O verbo “to be” é, se bem se lembram, o primeiro que aprendemos a conjugar quando aprendemos o Inglês. Assumindo-se assim que a primeira coisa que importa aprender a dizer noutro idioma é precisamente aquilo que somos, seja o nosso nome, a nossa idade ou a nacionalidade. Neste caso, com o bónus de também dar para expressar uma condição transitória, associada ao estar, como um estado de espírito ou uma doença. Pelo facto de este verbo poder ter duas interpretações surge a dúvida sobre o que quereria dizer quem escreveu este “Lisbon is too sad!” num muro da capital. Se tinha a intenção de dizer que a cidade em si padece intrinsecamente de uma melancolia que se lhe cola à pele, bem como à de quem lá vive, ou se queria expressar um estado de tristeza transitório, como quem diz que a coisa aqui por Lisboa já andou mais alegre do que anda agora e que se espera que venha a sê-lo novamente no futuro.

Thug life

Por norma, associamos a expressão “Thug life” a tipos que dificilmente convidaríamos para ir beber uma laranjada a nossa casa, metidos em negócios de droga e afins, acompanhados por senhoras com as quais seria complicado estabelecer uma relação estável e duradoura. Mundo esse que acaba por estar por vezes associado ao universo do hip-hop. Nesta pintura em Dublin, “Thug life” surge associada a indivíduos engravatados e de pasta na mãos, simbolizando os senhores do Mundo e da Finança, cuja ganância levou o Mundo a um espiral de crise. Olhar irónico e sarcástico que demonstra que a resposta do Street Art à crise e às doenças do Mundo segue moldes semelhantes, independentemente do sítio.

O sol

A coisa não estará escrita no melhor português (há uma cedilha a mais no “você”) e há um certo lado de clichê e lugar-comum sobre a vida – mais do que numa parede da zona do Martim Moniz, seria mais provável encontrá-la como slogan de uma agência matrimonial ou como capa de uma revista feminina. No entanto, ao mesmo tempo esta fotografia tem em si um certo lado de inocência e de mistério que enternece e apetece fotografar, para depois mostrar ao mundo. Não sabemos ao certo se quem a escreveu fez questão de dizer ao mundo que afinal estamos cá todos para servir de sol para uma pessoa que seja ou se realmente a frase tinha um destinatário (ou destinatária) definido. Soa a lamechas, mas, que diabo, não pode andar toda a gente a pintar graffitis ou a desejar que os senhores da troika ardam em fogo-doce.

Cair de cabeça

Esta frase, que alguém espetou numa parede algures pela Bica, deixou-em intrigado da primeira vez que a vi, por não me parecer fazer muito sentido. Afinal de contas, a poesia de rua também poderá ter esse efeito nas pessoas. Ainda assim, arrisco uma interpretação que passa por dar uma moral e um final feliz a tudo quanto possa acontecer de mau a uma pessoa, do género “Isto não está famoso, mas vai melhorar”.

Institucional

Não é tarefa fácil encontrar na Madeira coisas escritas pelas ruas. Não sei se por de ser uma ilha virada para o Turismo e haver preocupação com a limpeza dos espaços públicos, se pela Democracia ser por ali um conceito mais enviesado do que no Continente ou se as pessoas por ali serem pouco dadas a estas coisas. Sem querer dizer isto como verdade absoluta, arrisco que esta pintura será do mais próximo que se pode encontrar de arte de rua, pelo menos no Funchal. Pelo facto de ser algo mais institucional e por ser patrocinado por uma empresa de tintas – neste caso, a Robbialac -, está um pouco mais distante do conceito de arte de rua como vulgarmente conhecemos. Ainda assim, é salutar que se aposte na decoração do espaço urbano nestes moldes. De resto, é a exaltação daquilo que torna a Madeira conhecida, como o colorido dos jardins, as bananas ou os túneis.