A moda que espere

Andei a pesquisar por esta pequena pintura e cheguei à conclusão que já foi escrita há uma meia dúzia de anos, pelo menos, o que não deixa de ser um dado assinalável, tal a vertigem com que tais coisas são criadas para mais tarde alguém colocar alguma coisa por cima. “A moda que espere” é um mote para a definição de prioridades, numa altura em que a mudança de estação e a chegada dos saldos convidam a encher o guarda-roupa. Se falta o dinheiro para o que é mais importante, haverá coisas em lista de espera, certamente. A moda, por exemplo.

Escrever nas paredes

Encontra-se pelos subúrbios de Lisboa, mas poderia facilmente ser visto pelos hotspots das pinturas murais da capital ou, se quisermos ir mais longe, daria certamente fotos massivas por aí caso tivesse sido escrita em Inglês numa qualquer capital europeia. Duas crianças a escrever a mensagem que poderia perfeitamente ter-lhes sido dita em casa ou na escola, subvertendo essa mesma mensagem. O ver duas crianças tipicamente com espírito rufia e de rua lançando o apelo para manter as paredes públicas em branco será obviamente o melhor mote para encher as ruas de escritos.

Bibendum

É indesmentível que a tarefa que foi atribuída à mascote da Michelin não é das mais fáceis: ter o corpo constituído por um conjunto de pneus e ainda assim tentar passar um conjunto de valores que deixem a marca bem vista. Pese ser uma figura simpática – afinal de contas, nunca se viu o raio do bicho triste – este boneco remete imediatamente para uma condição física pouco invejável, sinal de um sedentarismo provocado por uso de carro a mais e exercício físico a menos, e todos nós sabemos o que significa quando cai sobre uma pessoa o ónus de “parecer o boneco da Michelin”. Este – lá está – simpático graffiti pintalgado num muro lisboeta, onde o nosso herói aparece num desempenho físico aprimorado (atente-se nos pingos de suor a espirrar), lança uma semente de esperança na mudança da imagem que dele temos.

Os sacrifícios

Os tão necessários sacrifícios apregoados por Passos Coelho à Nação, que teriam o condão de tirar o país do buraco em que se tinha metido mas que acabou por tornar esse buraco ainda maior, tiveram uma resposta espalhada um pouco por toda a cidade de Lisboa. Estas frases, escritas num Português menos formal e mais objetivo, datam do último Outono, e lançam a questão sobre a legitimidade dos sacrifícios exigidos aos comuns cidadãos, que perdem empregos, poder de compra e qualidade de serviços públicos, quando uma parte do país – os tais cavalheiros aqui citados – parece imune a isso.

Na Grécia

Por estes dias, o Mundo está em suspenso com as eleições na Grécia, que amanhã se realizam. A instabilidade em torno da moeda única e até do próprio projeto europeu, a existência de quatro países a serem intervencionados externamente sob o pretexto de evitar o colapso, o risco de contágio a muitos outros países – parece que a Itália e o Chipre também estão na calha -, fez com que apenas dois cenários fossem possíveis nestas eleições: os gregos irão escolher amanhã se ficam ou não na moeda única, não existindo uma espécie de terceira via, como a renegociação da dívida para condições mais favoráveis para os gregos. Assim sendo, este mural, escrito nas paredes do Instituto Superior Técnico há alguns meses atrás, ilustra que o que se passa na Grécia já não se confina às fronteiras daquele país: o que por ali se passar terá certamente consequências em muitos outros países. A começar pelo nosso.

Efeitos secundários

Já escrevi noutros posts que já lá vão que tenho alguma simpatia pelas frases que trazem consigo indignação e falta de sentido em doses generosas. É o caso desta prosa – que em boa hora fotografei, dado já ter sido apagada pelos diligentes serviços camarários de limpeza – que apela ao consumo da metilenodioximetanfetamina, também conhecida por ecstasy ou MDMA pela rapaziada do meio. Se é certo que este tipo de drogas está habitualmente associada a um certo lado lúdico e recreativo, não será menos verdade que os efeitos a prazo serão coisa para causar algum dano no cidadão que tomará tal coisa como uma criança – pelo menos, as que foram crianças na mesma altura do que eu – avia nos sugus. Razão terá o autor do muro, a dizer que se vive melhor graças ao MDMA, embora seja uma espécie de via sacra para o suicídio. Não se pode ter tudo.

Mudar a cara dos sensaborões vidrões

Quem mora ou trabalha em Lisboa – ou, para os bafejados pela sorte como eu, que fazem ambas as coisas pela capital – terá certamente reparado nas mudaças que os vidrões levaram nos últimos meses. Os vidrões não mudaram de lugar nem passar a ter uma utilização diferente do que sucedia no passado, mas foram alvo de intervenções promovidas pela autarquia, que lançou um concurso e que permitiu a que os outrora sensaborões depósitos de vidros passassem a dar outro colorido às nossas ruas. Aqui assiste-se a uma espécie de “copy paste” dos elementos de quaisquer jeans, mas há muito por Lisboa para ver. Serão obviamente aqui publicadas com o tempo.