O repto

Primeiro ponto: sou um indivíduo pouco dotado para a Filosofia e o pensamento em moldes mais abstratos, o que faz com que tenha registos pouco invejáveis em quaisquer atividades em que este raciocínio esteja contemplado, desde partidas de Risco a exames de Semiologia. Sendo assim, não me é permitido discernir sobre Platão, por muito que o tentasse fazer. Segundo ponto: não me tendo sido diagnosticados até à data transtornos Obsessivo-Compulsivos ou depressões, também não posso falar com propriedade do Prozac. Há aquelas pessoas que têm um vasto conhecimento sobre tudo, mas quanto a mim há áreas que não me pronuncio, estando o macramé e o râguebi incluídos nessa lista. Ainda assim, há que reconhecer o sentido deste repto: é mais proveitoso gastar mais energias na procura de respostas do que andar a resolver os nossos transtornos com recurso a medicamentos. Curiosamente, uma frase escrita em Coimbra.

Vizinhança

Bem antes de andarmos às voltas com o que tinha a ver com a nossa privacidade e a proteção dos nossos dados, por via das tecnologias que hoje em dia utilizamos, já tínhamos essas ameaças à nossa volta, sem que disso nos apercebêssemos. Quase todos nós tivemos ou temos, no bairro onde moramos, aquelas pessoas que parecem ser um poço de informação sobre tudo o que se passava no bairro ou na freguesia, sem que os visados soubessem o que deles se falava sem eles saberem. Seja como fôr, a chamada quadrilhice é uma instituição que ultrapassa as nossas fronteiras, embora reconheça que seja um termo com menos glamour que o equivalente em inglês “gossip”.

Esta pintura recolhida num bairro antigo de Lisboa – curiosamente, onde há maior probabilidade de encontrar estes poços de informação, fruto de redes sociais mais fortes – homenageia um dos símbolos da vigilância na vizinhança: as senhoras já de idade e com pouco que fazer, que passam dias à janela a ver o que se passa pela zona, a conversar com quem passa, de que resultam elaborados relatórios. E sim, há gente que sabe mais das nossas vidas do que nós pensamos.

Pela Fundação Saramago

Ainda que estando rodeada de um certo estatuto institucional, a zona em redor da Fundação José Saramago é um dos bons exemplos de como se pode utilizar a pintura mural em benefício da cidade: usando citações que remetem para o seu imaginário e que podem motivar uma análise de quem por ali passa, são apelativas do ponto de vista como são apresentadas e acabam por ser uma homenagem justa ao nosso único Nobel da Literatura. Este convite ao risco é um justo mote em tempos conturbados como aqueles que atravessamos, mostrando quetomar uma má decisão sempre ajuda mais do que não tomar nenhuma.

A vigarice

Dias depois da apresentação do Orçamento de Estado para o próximo ano, é sempre de bom tom recordar os ditos que colocam em causa a honorabilidade dos titulares dos cargos políticos em Portugal. Chamar ladrões, vigarista, trapaceiros, trambiqueiros e afins aos nossos políticos está para a pichagem um pouco como as calças de ganga estão para o vestuário: nunca passa de moda. Assim sendo, seria de mau tom não colocar com regularidade aqui pelo blogue os ataques ao bom nome de quem dirige o país, tal como é sugerido nesta acusação de apropriação indevida dos fundos da Segurança Social. Aqui é referido o primeiro dia do ano como sendo a data de escrita destas frases, mas na verdade só foram dadas a conhecer algures em Março.

As ameaças

Li há poucos dias um artigo de opinião de Maria Filomena Mónica no Expresso (podem ler o conteúdo aqui), a propósito do fenómeno dos graffitis, classificados como simples vandalismo do espaço urbano. Sendo legítimo a cada um expressar a sua opinião, parece-me falhar no essencial: meter num mesmo saco quem rabisca uns gatafunhos numa parede e quem pinta prédios devolutos inteiros e coloca Lisboa no mapa das grandes intervenções em espaço público (assim de repente, ocorre-me as pinturas d’”Os Gémeos” na Avenida Fontes Pereira de Melo), isto apesar de ser óbvio que as motivações e o impacto na paisagem urbana nunca podem ser as mesmas.

Este blogue passa por cima da discussão sobre o assunto, mas ajuda a baralhar as contas: quem anda com os olhos minimamente atentos ao que se faz por Lisboa, concordará que a zona das Amoreiras alberga alguns dos melhores graffitis da cidade. Isto numa zona em que coexiste com um dos maiores atentados arquitetónicos que se fizeram em Portugal, precisamente o Centro Comercial das Amoreiras, símbolo de um novo-riquismo que grassou em Portugal no período cavaquista e da capacidade de Tomás Taveira em mandar às malvas o bom-gosto na construção de edifícios. Olhando para obras que naquelas paredes se encontram, como este turista meio desorientado de mapa na mão – uma imagem relativamente comum pela capital -, é legítimo perguntar: onde está afinal a maior ameaça à paisagem urbana?

À entrada

Uma pausa nas fotografias destinadas a captar a indignação, que alastra pelo país como uma mancha de óleo, para mudar um pouco o registo. Caso fosse questionado sobre os aumentos do IRS que se avizinham, diria que o fogo ateado simbolicamente à porta da Assembleia da República só pecou por ser demasiado curto. Olhando a vida de forma um pouco mais positiva, é bom ver estas coisas escritas nos muros. O destinatário está definido, mas não é possível garantir que estado de espírito se apodera de alguém quando vê o seu nome estampado de forma tão franca numa parede. Esta frase, escrita às portas de Lisboa, mais propriamente na entrada da sede de uma associação cultural e recreativa, remete para os mais simples sentimentos deste Mundo, por vezes um sítio tão complicado para se viver.

Um país ao contrário

Em plena Praça dos Restauradores, local central da capital portuguesa e espaço de homenagem à Restauração da Independência de 1640, a 1 de Dezembro – o tal feriado que vai acabar para o próximo, apesar de homenagear um acontecimento que permitiu os factos históricos que deram origem a todos os outros feriados civis que hoje conhecemos, à exceção do 1º de Maio – , em tempos alguém fez isto que vemos. A carga irónica de tudo isto é óbvia, tendo em conta o local. Uma plana de sinalização com Portugal ao contrário. Tal como foi dado a conhecer, embora involuntariamente, pelo Presidente da República nas comemorações do 5 de Outubro.