Citando Pessoa

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Poema de Alberto Caeiro (Heterónimo de Fernando Pessoa), no livro “O Guardador de Rebanhos – Poema VII”. A título de curiosidade, isto foi pintado algures entre o Hospital Júlio de Matos e um bairro social ali pela zona.

A engrenagem

Um dia, quando questionado sobre o que mais o surpreendia, o Dalai Lama respondeu que eram os homens. A razão era porque perdem saúde para juntar dinheiro e depois perdem esse dinheiro para recuperar a saúde. Uma tese bastante lógica, que põe em cheque muita da nossa argumentação a favor do investimento excesivo que fazemos no trabalho que, no limite, põe em causa o nosso normal funcionamento enquanto pessoas. Esta frase, fotografada em Lisboa, insere-se nessa lógica de raciocínio do tipo “pescadinha de rabo na boca” e certamente que se aplica a muitos de nós. Quem já não ouviu o célebre raciocínio “Vou comprar um carro a diesel, porque agora vou fazer mais km para ir para o trabalho?”. Certamente que a grande engrenagem em que estamos metidos nem sempre nos dá margem para sair desta lógica, mas uma frase destas escrita numa parede dificilmente não dará que pensar.

Dalaiama

Quem costuma andar pelas ruas de Lisboa já deve ter reparado nas imagens, espalhadas um pouco por todo o lado na cidade e também por algumas periferias, de andorinhas a serem perseguidas por um pacman de tamanho bastante superior ou noutras imagens envolvendo bonecos indiferenciados ou símbolos do Euro. Toda esta simbologia remetendo para a omnipresença dos grandes tubarões que mandam no Mundo e que olham para os restantes indivíduos como números ou como fonte de receita, desejando retirar-lhes a capacidade de decidir pelas suas vidas ou de sonhar. O nome Dalaiama é, por assim dizer, um nome já com créditos na praça, no que a intervenção urbana diz respeito. Para os curiosos, vale a pena estudar a página que dá a conhecer o seu trabalho (link aqui)

Auto-ajuda

Para o post nº 100 do Vozes da Rua, um convite à descoberta interior. Quem se senta do lado de cá do teclado – isto sou a falar em mim mesmo na terceira pessoa – não é a pessoa mais dada do mundo a descobertas interiores, mas um convite deste género não deixa de ser desafiante: dizem os entendidos – rapaziada que ganha do bom a escrever livros de auto-ajuda – que é sempre bom irmos à procura de algo de novo para as nossas vidas, a começar em nós próprios. Nestas alturas de maior aperto é quando descobrimos que afinal temos talentos desconhecidos, que somos mais generosos do que julgávamos e passamos a valorizar mais as coisas que antes dávamos por adquiridas. E, tal como dizem estes ensinamentos escritos numa parede desse micro-cosmos que é a Margem Sul do Tejo, vamos sempre a tempo.

Sobre Religião

O Vozes da Rua reconhece o direito a cada um a ter a religião que bem entender, desde que estas escolhas não sirvam de pretexto para perseguições, guerras e intolerâncias de vária ordem. Infelizmente, realidades de que a Humanidade sempre teve presente até aos dias de hoje. Da mesma maneira, reconhece o direito a que esta possa ser alvo de críticas por quem anda fora do assunto, mesmo numa linguagem dura na óptica de quem segue uma religião. É o caso desta frase, lançando farpas das grossas a este último grupo, num tom com o seu quê de agressivo e remetendo para os velhos amigos imaginários na infância, que apenas estão nas criativas cabeças das crianças. Soa a intolerância, mas não reza a história que quem escreveu isto tivesse andado a seguir a roubar bíblias e corões.

A pátria onde Camões morreu à fome

Seria expectável que, dada a visita de Angela Merkl a Portugal – se é que a meia dúzia de horas em solo luso se pode dar o nome de visita oficial – postasse os murais alusivos à subjugação do Governo português à senhora formada na antiga Alemanha de Leste. Fugindo do clichê, é hora de uma curiosa reflexão numa concorrida avenida de Lisboa, onde um dos nomes maiores deste país é citado. Aqui, Camões é usado enquanto metáfora grande povo espezinhado, do qual todos os que têm algum poder se aproveitam, começando no pequeno autarca e acabando no especulador financeira do qual nem o nome sabemos. A ideia que se vai generalizando de um povo relativamente manso face aos atropelos dos grandes está aqui bem representada.

Recordando 2004

Uma das vantagens das frases sobre política escritas na rua – partindo do princípio que elas não são apagadas ou substituídas por outras – é o de permitir recordar expressões de indignação relativamente a tempos já idos. Como é o caso desta indignada prosa dedicada aos chefes de Estado e de Governo durante o segundo semestre de 2004, após a saída de Durão Barroso para presidir – se é que tais predicados se lhe podem ser associados – à Comissão Europeia. O que aqui está escrito é puro insulto nihilista: o habitual trocadilho com o apelido do então Presidente da República envolvendo enchidos tradicionais portugueses e o epíteto pouco simpático de palhaço, logo seguido de acusações pouco abonatórias sobre Santana Lopes. Olhando em retrospetiva, por estas alturas o país não conhecia os níveis de endividamento e desemprego como hoje conhecemos, não estávamos de cócoras à mercê de um resgate externo e os índices de auto-estima da Nação andavam certamente melhores. É caso para dizer que, mesmo com Santana Lopes e Sampaio, éramos bem mais felizes do que somos hoje.