O léxico da crise

Entre as palavras que entraram no léxico da crise dos últimos anos em Portugal, contam-se obviamente as duas mencionadas nesta fotografia. “Piegas” foi o termo usado por Passos Coelho como sendo a antítese daquilo que esperava do povo português e da forma de encarar a crise, mesmo sendo este vítima do rolo compressor do que têm sido as medidas aplicadas nos últimos anos, divididas entre a santíssima Trindade que dá pelo nome de Troika e as tabelas de cálculo de Vítor Gaspar. Tal como as célebres confusões de António Guterres a calcular o valor do PIB, em meados dos anos 80, também esta palavra será lembrada quanda a História fizer um balanço do seu balanço de Primeiro-Ministro. “Ordeiro” foi a forma que se encontrou para descrever o comportamento do povo português ao longo destes últimos anos: os protestos, ainda que em maior número do que no passado, correram de forma pacífica, sendo os momentos de violência – em que a falta de prudência e bom-senso de alguns manifestantes e da polícia andaram lado a lado – pequenas notas de rodapé, exaltados pelos Media , sempre sedentos de violência. Esta frase, devidamente estampada à saída de uma estação de Metro, terá sido escrita por alguém que não se identifica com as graçolas de Pasos Coelho nem com a caraterização sociológica atribuída aos portugueses. Sim, continuam a existir setores mais exaltados dentro do País e a crise tem o condão não só de empobrecer, mas também de ajudar a criar maiores e mais imprevisíveis franjas de descontentamento. E não há regressos vitoriosos ao mercado da dívida que consigam dar a volta a isto.

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George Best

Poderei estar enganado, mas nunca terei visto por cá paredes dedicadas a jogadores de futebol. Há o normal “marcar território” de adeptos de clubes e claques de futebol, o insulto aos adversários e aos árbitros, mais do que a exaltação dos grandes feitos. Quanto aos protagonistas do jogo propriamente dito, esses andarão esquecidos. Por isso, oportunidades de fotografar essas homenagens não são de desperdiçar, mesmo que estejam fora de Portugal. Neste caso, George Best, estampado numa parede em Dublin. Mais do que o futebolista propriamente dito – que inequivocamente foi um dos grandes nomes do desporto-rei – Best foi uma daquelas figuras do futebol capaz de nos demonstrar a dimensão humana do desporto, por nos fazer perceber que, por muito bom que seja um atleta, há sempre uma pessoa por detrás, carregando os mesmos defeitos e virtudes, no seu caso a dependência do álcool. De resto, fomo-nos habituando a ver essa espécie de vivências simultâneas de vício e virtude nas mesmas figuras, como Maradona e, usando um caso recente, o de Lance Armstrong.

O espírito

Depois de fugir ao tema das paredes pintalgadas por um post, uma fotografia de uma pixagem, que dá o mote para o crescente interesse pela intervenção urbana e pela poesia de rua. Uma parede que constata o óbvio e resume a razão pela qual dá gozo tirar fotografias por essas ruas. Contrastando com a uniformização e o desejo de limpeza absoluto das nossas ruas, irrompe o desejo de querer lançar pedras no charco e querer chamar a atenção daqueles com quem se partilha o espaço público. A constatação de que paredes limpas serão certamente mais aborrecidas do que aquelas que por aqui e ali se fotografam, parece ter sido tirada da minha cabeça e pintalgada numa rua lisboeta. No fundo, o resumo do espírito deste blogue devidamente condensado numa fotografia.

O coração da Aninha

Fugindo ao quase eterno tema das paredes pintalgadas, hoje falo do recurso a um elemento que estará bem longe do que por aqui normalmente é proposto. Enquanto que quem escreve numa parede estará certamente à espera que por lá perdure aquilo que fez e normalmente não pensa num destinatário específico, este pequeno coração, que encontrei uma vez num bairro histórico lisboeta, traz consigo um autor e uma destinatária bem específicos. O Kim certamente poderia escrever numa parede aquilo que lhe ia na alma, mas quis ser mais recatado e recorreu ao eterno símbolo do amor, não só no conteúdo (a Aninhas é claramente definida como alguém que tem um grande coração para o Kim), mas também na forma. O Kim, qual poeta romântico dos tempos modernos que recorre a originais formas de mandar a mensagem, merece aqui uma referência. E já agora a Aninha, cujo coração é grande.

O velho imaginário

Regressando ao local lisboeta de graffitis que vai dando cartas em termos de visibilidade – falo dos muros que começam ao lado das Amoreiras e por ali continuam – , uma fotografia a remeter para o velho imaginário dos filmes de terror com orçamentos baixos e meios técnicos sofríveis, mas carregados de boas intenções (se é que tal imagem se pode aplicar aos filmes de terror). Não será fácil adivinhar se tudo isto foi pintado a título pessoal, por alguém que estaria de regresso, mas pode-se sempre alvitrar que uma imagem destas lado a lado com os murais a criticar a situação política no país (como o “Pray for Portugal” colocado há poucos posts atrás) é quase uma metáfora para o regresso de um país meio a cambalear à vida.

Sangue

Ao enumerar os poetas portugueses do Séc. XX, dificilmente ocorrerá o nome de Saúl Dias. Discussões literárias à parte, nem sempre é fácil encontrar por esses muros citações de versos de autores portugueses, pelo que importa chamar aqui a atenção sempre que alguém mete mãos à obra para pintalgar uma parede com um pouco do que outros já escreveram na nossa Língua. O poema, a fazer lembrar os autores do Romantismo português, com os sentimentos à flôr da pele, reza assim:

Sangue

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos…

É só com sangue que se escrevem versos.

Saúl Dias, in “Sangue”

Lugares-comuns

Não é possível aferir que estas palavras foram escritas a pensar num destinatário específico, se seria uma catarse do próprio autor a passar por cima de algum acontecimento mau que lhe sucedeu ou se, pura e simplesmente, visava transmitir uma mensagem positiva a quem passasse por aquele local. Seja como fôr, esta é uma das frases que fazem parte da velha cartilha de conselhos que as pessoas vão transmitindo umas às outras, quando algo de mau acontece. Sendo uma frase com uma utilidade bastante vasta, já a ouvimos nas mais diversas circunstâncias: em funerais, em quartos de hospitais, em despedimentos e por aí fora. O sorriso que acompanha a frase dá-lhe um ar mais fraternal, como que a querer dizer “A coisa está mal, mas com o tempo vai melhorar, porque as coisas são mesmo assim”. Verdade é que os velhos lugares-comuns sobre a vida, escritos em muros, nunca são um mau uso do espaço público.