Cagufa

Com o advento de novas formas de protesto – sejam as “grandoladas”, em que anónimos interrompem cerimónias oficiais para cantar a canção de José Afonso ou a brincadeira envolvendo o número de contribuinte de membros do Governo – é legítimo dizer que surgem outras ameaças a pairar sobre quem manda neste país, com particular destaque para o Primeiro-Ministro. Acrescentando a este facto a realização de uma nova manifestação à escala nacional, marcada para daqui a dois dias, o que está escrito nesta parede não será uma coisa descabida. Sinal de que em Portugal, mais do que o apoio, está em causa uma falta de respeito do povo face aos seus eleitos.

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Jogatana

Um traço relativamente comum no nosso espaço urbano é a existência de zonas de lazer contendo mesas quadradas com um banco de cada lado. Não sendo eu um especialista no que respeita ao uso de mesas nos espaços públicos, não poderei arriscar se a sua existência tem como objetivo proporcionar à população locais para as tradicionais jogatanas de cartas, dominós e afins. Seja como fôr, é um facto que estas mesas – que se vêm um pouco por todo o país, independentemente se ser em grandes cidades ou em meios mais rurais – acabam acima de tudo por ser usadas para grandes confrontos de sueca e para as consequentes discussões sobre o número de trunfos, as biscas e os ases. Jogos estes protagonizados acima de tudo por reformados, com mais tempo livre e mais habituados a estas andanças ao longo da sua vida. Fenómeno este que não será certamente do agrado da pessoa que pintou a parede de um destes locais em Lisboa, classificando-o como a zona dos burros. Por razões que também não me atrevo a adivinhar.

Os velhos conselhos

O que aqui vemos está exposto em vários pontos de Lisboa e, mesmo fazendo parte do vasto catálogo de stencils que povoa a capital, é daquelas frases que tanto poderia fazer parte dos velhos conselhos para a vida que os nossos avós nos davam, como serviria também de mote em nome do empreendedorismo juvenil, seguindo essa grande tendência nacional de querer que qualquer cidadão seja um agente ativo para combater a crise. Seja como fôr, para a posteridade fica uma daquelas verdades insofismáveis sobre a vida, usando literalmente a imagem de um homem vislumbrando o céu como se de algo inútil se tratasse. Injustamente, diga-se de passagem, já que se há coisa de que a humanidade realmente precisa é de contemplar mais o céu.

Informática

O mundo da Informática traz consigo os seus fascínios – nem que seja o financeiro, porque muita gente põe comida na mesa porque trabalha na área – mas estará longe de ser um tema apelativo para a arte de rua. Este graffiti acaba por representar uma exceção. Nele, os seus autores fazem a sua homenagem a tudo o que esta tecnologia lhes trouxe, desde o trabalho meio robotizado em frente a um ecrã, passando pelo mundo dos sites para adultos, acabando nas funcionalidades da edição da imagem. Tudo isto com dois tipos a acompanhar, usando óculos, normalmente um estereótipo estético associado a quem passa muito tempo em frente aos computadores.

O Mundo novo

Em plena Baixa lisboeta, os anarcas a deixarem a sua marca nas paredes. Normalmente associados aos velhos slogans de protesto sobre os políticos e à alta finança – com muito mais classe e inteligência do que os insultos mais corriqueiros de “chulos” e afins – é sempre bom quando vemos alguém escrever uma frase simples e carregada de simbolismo. É facto adquirido que todos nós idealizamos um mundo pouco melhor – seja em pequenas minudências do dia-a-dia, seja no planeta como um todo -, mesmo que não façamos nada por mudar o que existe. Este escrito acaba assim por representar um pouco de todos nós.

Limões

Continuando na saga de ensinamentos para a vida recolhidos pelas ruas da capital, uma daquelas frases feitas, escritas em Inglês, que nos fomos habituando a ouvir. A frase em si não contém mais do que o velho conselho para que o ser humano seja pragmático e otimista perante a aquilo que a vida lhe dá, usando os limões como metáfora, um fruto cuja utilidade, para além dos chás e de ingrediente meio acessório na culinária, tem como principal finalidade servir de matéria-prima para a confeção de limonada. Também existem outras finalidades, mas quem concebeu esta ideia não terá tido o caso dos heroinómanos na cabeça. O ensinamento em si pode até nem inspirar muita gente na sua vida, mas haja alguém com a paz de espírito para se dar ao trabalho de o colocar num dos locais premium da pintura mural em Lisboa, na Rua da Artilharia Um.

Reciclar

Por alturas de festejos carnavalescos um pouco por todo o país – uma festa pela qual não tenho particular simpatia -, surge o inevitável convite à encarnação de outras personagens e o comum cidadão sai da sua vida rotineira de trabalho, família e outras obrigações para de repente encarnar outra coisa qualquer, o que acaba por redundar por vezes em espetáculos pouco decorosos, como aqueles cavalheiros vestidos de mulher em Torres Vedras. Pegando nesta metáfora carnavalesca e do convite para se ser outra qualquer coisa durante um ou vários dias, é sempre bom recordar um velho stencil que se vê aqui e ali em Lisboa, no qual o transeunte é convidado a reciclar-se. Algo que passará certamente por uma mudança mais profunda do que a brincadeira destes dias e um convite a pensar no que de mau há nas nossas vidas e reverter tudo isso em algo positivo.