O gosto

Exceção feita a quem anda por aí a riscar as paredes com gatafunhos – sem outro intuito que não o de marcar território ou reforçar o ego de quem o faz – , quem pinta as paredes com prosa ou com desenhos certamente que o faz com uma certa dose de carolice e de gosto. Pesando os vários contras, que vão desde o ser apanhado e julgado pelas autoridades até ser olhado pelos outros com um certo sentimento de ridículo, acaba por ser a vontade de deixar uma marca no espaço público que leva a que se pegue numas latas de spray ou nuns moldes e se faça o estrago por essas ruas. Algo devidamente sintetizado nesta fotografia.

Redundância

Esta fotografia poderá não ser bem entendida, se retirada do contexto – no momento em que terei esta humilde fotografia, a partir do telemóvel, não tive a preocupação de a tirar a partir de um ponto mais recuado. Mas passo a explicar: numa rua em obras, com um único sentido, foi colocado este aviso. Sugerindo que os peões prosseguissem no sentido indicado pela seta, o que eles acabariam por fazer, mesmo que não existisse qualquer aviso ou setas na respetiva direção. O que aqui se propõe é a resposta irónica a esse mesmo aviso. Com alguma piada à mistura, entenda-se.

Observado

Este aviso tem o dom de se aplicar a várias esferas da nossa vida. A frase em causa está normalmente associada ao comércio e a sua aplicação é justificada como uma forma de prevenção de roubos, não obstante violar a privacidade da larga maioria dos pacatos clientes. O tema em si parece não suscitar a maior das preocupações, visto a esfera privada começar a ser um conceito cada vez mais dúbio e a sua proteção ser muitas vezes posta em causa pelas próprias pessoas, de que é um exemplo a forma meio descarada como as redes sociais são muitas vezes usadas. De uma forma mais inocente, coisas absolutamente banais, como usar a Internet, o cartão multibanco ou o telemóvel deixam obviamente o seu rasto. No fundo, o lado mais negativo da tecnologia, por assim dizer.

Invader

Quem viu o filme “Exit through the gift shop”, dedicado ao artista de rua Banksy – mas que acaba por passar pelo trabalho de outros artistas, em França, Reino Unido e Estados Unidos – certamente estará recordado de serem apresentadas variadas imagens de naves espaciais do jogo Space Invaders. Imagens essas da autoria de um artista francês, que dá pelo nome de Invader, cuja imagem de marca são as representações em pequenos azulejos das personagens (se é que assim se pode chamar) desse popular videojogo surgido no final dos anos 70 e que estará na memória de quem cresceu nas décadas e de 70 e 80. Representações que podem ser vistas em mais de 20 cidades em todo o mundo. Não obstante essa disseminação mundial, tudo isto começou em meados dos anos 90, em Paris. Cidade onde tive a sorte de levar esta fotografia como representação.

Aproveitando a data

Embora pouco dado a datas do género “O Dia de” qualquer coisa, o Vozes da Rua aproveita a deixa de hoje ser o Dia do Pai para mostrar esta curiosa pintura mural, escondida numa rua dum bairro histórico da capital. A pintura contém em si uma certa carga moral, recordando que para além dos méritos biológicos da paternidade, há outros com um grau de dificuldade acrescida, que são os de assumir esse papel a tempo inteiro. Não se sabendo se o repto é lançado a alguém em particular – provavelmente a passar ao lado dessas responsabilidades – ou se visa apenas lançar uma ideia na qual os poucos que por ali passam possam meditar.

A dicotomia

Reciclando uma das mais citadas frases de sempre, vem à baila a velha dicotomia entre o ter e o ser. A frase fará obviamente sentido se colocada na parede de uma rua de uma qualquer cidade no Mundo Ocidente, remetendo para um raciocínio mais audacioso, em que o oposto da nossa vida baseada em altos padrões de consumo é precisamente uma não existência, como se não houvesse vida para além da tecnologia, dos automóveis e de uma generosa conta bancária.

Carlos

Que atire a primeira pedra o comum ciadão que nunca sentiu ou sente inveja de outra pessoa. Não a inveja no sentido doentio do termo, que pode levar a querer prejudicar a pessoa em causa. Mas aquela inveja socialmente aceitável e até saudável, dirigida a pessoas que têm um talento superior ao nosso ou que tiveram mais sorte em determinado momento da vida. Sendo então este um ponto assente, há também o fenómeno inverso: pessoas em cuja pele não gostaríamos de estar e que nos ajudam a relativizar os males de que padecemos. Esta fotografia traz então um caso destes. Não sei quem é o Carlos ou quem pintou estas linhas. O que daqui se depreende é que o Carlos é uma espécie de vítima de bullying social, um desgraçado que, fazendo fé na fotografia, leva porrada de todos. Não sabemos se de todo o bairro ou de um grupo limitado dele, sabemos apenas que é vítima de pessoas com pouca queda para a ortografia.