O carocha

Eu, pouco dado que sou a paixões automobilísticas, tenho o popular Volskwagen Carocha como um bom nome da indústria automóvel. Um carro adequado ao seu tempo, utilitário e fiável, e cuja estética acabou por torná-lo num dos ícones do Séc.XX. Não obstante essa popularidade, normal será que carros mais eficientes, confortáveis e rápidos tenham tomado o seu lugar ao longo dos tempos nas preferências das famílias, tendo o carocha ficado com a imagem de carro simpático, mas meio tosco. Por esse prisma, acabará por fazer algum sentido a comparação de um dos mais profícuos escritores dos espaços públicos de Lisboa – há um modus operandi que permite concluir que se trata da mesma pessoa a escrever em vários pontos de Lisboa, pela indignação um pouco trapalhona, pela caligrafia e pelo facto de escrever com o mesmo tipo de caneta, que não lhe permite escrever em paredes – em que remete essa comparação para o lugar de Portugal no contexto da União Europeia: um país simpático, mas sem peso no contexto europeu e ao qual não é expectável um grande futuro.

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Canvaz

Normalmente costumo acompanhar as fotografias que aqui ponho com um pequeno lamiré sobre o que lá está contido, nem que seja um qualquer lugar-comum. Há situações em que esse é um exercício difícil, como é o caso desta imagem. A imagem de uma criança a olhar para um símbolo da anarquia, que contém em si uma pequena amostra de uma canção dos Oasis, com tinta a derramar de propósito, não será a coisa mais fácil de discernir. Uma pesquisa no Google sobre esta pintura mural não levou a grandes conclusões, pois quem também lhe tirou fotografias não conseguiu acrescentar grandes explicações. É possível, no entanto, saber que esta imagem é de um artista irlandês, de seu nome Canvas, que se dedica a uma visão satírica sobre o mundo, não se coibindo de desconstruir alguns conceitos mais populares do mundo ocidental, como por exemplo, a publicidade. E trata-se de um dos mais conhecidos nomes desta área na Irlanda.

Caminhar para ir crescendo

“Caminhar para ir crescendo” é o mote lançado nestas escadarias de um velho bairro de Lisboa. Uma espécie de ensinamento para a vida, em jeito de convite para a aprendizagem constante, a pouco e pouco. Curiosamente, estas escadas estão numa zona relativamente íngreme daquele bairro, não sendo de excluir a possibilidade de serem usadas como uma espécie de metáfora para quem queria um alcance um pouco maior para as suas palavras.

Pelos lados do Rossio

Esta parede junto à Estação do Rossio prova que também de memórias se podem pintalgar os muros das cidades. Aqui são recordados tempos já idos, em que a estrada em frente a estação não era uma das mais concorridas em Lisboa e em que o tráfego se fazia por elétricos e muita gente por ali andava a pé. Por outro lado, não obstante o sol que desponta nas traseiras do edifício, vemos um cenário meio a preto e branco, de gente pobre e ar infeliz. Passaram os tempos e, em bom rigor, podemos dizer que é uma zona que não mudou assim tanto e as alterações que por ali ocorreram foram para melhor. Prova disso é precisamente o sítio onde esta fotografia foi tirada, hoje uma interessante zona de lazer.

Com assertividade

Uma frase que se encontra por um dos hotspots das escrituras em murais – a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova – , cujo autor não pode ser acusado de falta de assertividade. Aqui, não há intenção de espalhar charme pelo sexo feminino em geral ou de lançar frases com uma aura de mistério pelo meio. Sem rodeiosm o autor desdenha toda e qualquer mulher, à exceção de uma, precisamente a destinatária desta mensagem. Quanto aos restantes transeuntes, são meros espetadores de um diálogo emq que os protagonistas estão identificados. O único problema é mesmo a ausência de identificação do emissor e do recetor da frase. Resta, ao menos, esperar que a mulher – que a lógica faz supor que é uma aluna daquele estabelecimento de ensino – perceba que a mensagem se lhe é dirigida.

Sementes

Já terei perdido a conta à quantidade de versões que terei lido da velha frase pacifista, meio slogan, meio “complete à sua escolha, do “Drop (à sua escolha), not bombs”. Aqui, em adaptação para a Língua Portuguesa, num registo mais amigo do ambiente e, porque não dizê-lo, a remeter para a herança rural do país. Herança essa que se foi perdendo, mas menos mau será ver o solo português mal aproveitado para a botânica ou agricultura do que ver bombas a serem derramadas nele. Afinal, ainda vamos tendo coisas boas.

A negação

Recorrendo mais uma vez aos muros pintados por anarquistas, a negação de qualquer sentimento patriótico bem como da etiqueta de brandura normalmente associados aos portugueses – o tão propalado povo de brandos comuns com que o Estado Novo gostava de catalogar o povo português. Um slogan a recordar os velhos apelos de luta internacional inter-classes, com violência à mistura. E, ironicamente, desmanchando o nome de uma das mais conhecidas marcas de tabaco fabricadas no nosso país.