A beleza de Lisboa

Diz o povo, na sua infinita sabedoria, que ninguém é bom juíz em causa própria. Fazendo jus a esta linha de raciocínio, quem vive num determinado local não será a pessoa mais isenta para fazer a avaliação do que nele há de bom ou de mau. Isto propósito desta interessante frase escrita numa parede lisboeta, enaltecendo as virtudes da Lisboa. Cidade quase sempre aquecida pelo sol, com um rio a delimitar parte das suas fronteiras, com um Cristo-Rei do outro lado a mandar um abraço para o lado de cá, com uma amálgama de estilos arquitetónicos que vão desde os bairros históricos com o seu quê de catótico e de carismático até à replicação da fórmula dos subúrbios na zona oriental, passando pelo Art Nouveau das avenidas Novas. Talvez este slogan tenha o seu quê de exagero e de bairrista – curiosamente, a fotografia foi tirada num bairro hostórico -, mas quem por cá mora não pode deixar de dar alguma razão a quem o escreveu.

Coca-Cola

Raramente as marcas e produtos dão o mote para trabalhos estampados nas paredes. Sendo a Coca-Cola uma das mais universais marcas, não espanta que conste num dos poucos exemplares de trabalhos deste tipo. Neste caso, no intemporal e sempre reconhecível formato de garrafa que se foi celebrizando em todo o Mundo. Não sendo este trabalho com um significado óbvio – algures entre alguém de tal maneira apaixonado para quem aquela garrafa será sempre mais do que uma simples garrafa até um fã irredutível desta bebida -, o facto de ser simultaneamente simples e causador de interrogação por quem ali passa será certamente algo que dará satisfação a quem decidiu pintá-lo numa parede.

Bons propósitos

Por vezes, há pessoas que, de estarem tão bem com a vida, gostam de passar esse sentimento positivo para os outros, mesmo não os conhecendo, numa espécie de mensagem de auto-ajuda para transeuntes sem custos para o utilizador. No meio de tanta raiva pintalgada pelas paredes, não cai mal ver pessoas com bons propósitos e alegria pela vida a querer contaminar desconhecidos. E, no fundo, a trazer os outros para o lado mais básico da vida. Sim, é verdade que há cada vez mais motivos para pensar que isto só está bom para alguns, mas – que raio! – pelo menos andamos por cá. O que já é tanto.

A frase estampada

A discussão sobre o que pode ser ou não Stret Art certamente já terá feito gastar muita saliva em discussões, tinta em publicações e também muitos teclados em trocas de ideias no mundo virtual. Sendo um conceito que traz consigo uma elevada carga de subjetividade, será normal que discussões sobre o assunto raramente consigam levar a conclusões irrefutáveis. O mesmo se pode apontar a quem deixou esta frase estampada nesta parede, acompanhada de uma imagem a fazer lembrar os velhos ícones dos videojogos. Para quem a escreveu, é passível de ser considerada arte de rua. Para outras pessoas, é mais plausível concebê-la como uma frase escrita numa parede e nada mais do que isso. E os diferentes lados da barricada poderiam estar horas a discutir o assunto e a única conclusão que é possível extrair é que provavelmente não chegariam a conclusão alguma.

Sem hierarquias

Um regresso às velhas pixagens anarquistas – e o que seria deste blogue sem elas – desta vez com um dos seus mais conhecidos slogans. A velha cartilha, recusando hierarquias de toda a espécie, sejam elas espirituais ou em matérias mais terrenas. No meio de tanta coisa atual para dizer sobre a crise, há que recordar os velhos clássicos. Estes nunca passam de moda.

Velocidade

Nunca é demais citar a boa e velha sabedoria popular portuguesa, neste caso sob a forma do velho confronto entre a utilidade dos animais. Ou, sendo mais específico, no cavalo, bicho tido como ágil e expedito em comparação com o burro, animal considerado como mais vagaroso e dotado de menos inteligência – quantas vezes não nos referimos a alguém como sendo um burro, quando queremos dizer que é alguém pouco esperto? Tanto quanto sei, este velho ditado foi entretanto apagado, mas importa dizer que esta fotografia foi tirada em pleno Marquês de Pombal, mais precisamente num local onde afluem vários carros vindos das Amoreiras e do Túnel do Marquês, e há fortes hipóteses de que quem por ali passa fique parado no trânsito à espera do sinal verde. É, por isso, curioso que alguém se lembre de uma metáfora destas num sítio onde se passa tanto tempo parado dentro de veículos bastante rápidos.

Televisão

Raramente a tecnologia é utilizada para dar o mote às pinturas de rua, até porque usar meios rudimentares para versar algo que é cientificamente muito avançado traz sempre consigo uma espécie de contradição. Ainda assim, aqui e ali, lá se vão encontrando referências, não tanto às especificadades da tecnologia em si, mas antes a uma visão mais pessoal do impacto dessa tecnologia na vida de cada um ou na sociedade. Como sucede com este antigo modelo de televisão aqui estampado, que mais nada tem a mostrar do que veneno, certamente uma referência às velhas teorias que retiram qualquer utilidade ao pequeno ecrã, ou, pior do que isso, uma máquina ao serviço de interesses bem acima do próprio indivíduo e um contributo para a sua alienação. Sim, falamos da mesma velha caixa que mudou o mundo, embora haja que não tenha sido para melhor.