O campeonato dos disparates

A crise que vivemos teve o condão de trazer ao de cima, para além de uma pobreza meio encapotada que se tornou mais visível e mais abrangente, também a pobreza de espírito daqueles que nasceram em berço de ouro e nunca tiveram realmente contacto com os fenómenos de carência económica e social. Assim sendo, entraram para o léxico da crise toda uma série de conceitos novos, de que são exemplo as recentes declarações de Cristina Espírito Santo sobre as férias na Comporta, nas quais se brinca aos pobrezinhos, versão moderna e adulta das antigas brincadeiras de enfermeiros ou dos pais e das mães. No entanto, a liderança nesta espécie de campeonato dos disparates está na posse de Fernando Ulrich, cujo desconhecimento sobre a vida de quem é pobre é proporcional à capacidade de dizer frases orelhudas. O “Aguenta, aguenta”, em que elogia a braveza dos sem-abrigo em suportar dificuldades, ajudou claramente a dar-lhe o primeiro lugar. Tanto que alguém decidiu escrever este epíteto numa parede.

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Contrariar a tese

Pegando na célebre frase de René Descartes “Penso, logo existo”, escrita no seu “Discurso do Método” – em que defendia que a dúvida sobre tudo era o que motivava um pensamento crítico que fundamentava a existência do ser humano – alguém decidiu escrever esta frase no último andar deste prédio. Curiosamente, desdizendo o sentido da frase original, certamente defendendo que, mesmo prosseguindo essa relação causa-efeito, não dará a sua existência como adquirida. Certamente uma discussão filosófica interessante, apenas possível se se soubesse quem se deu ao trabalho de a escrever. O que não é o caso, como sucede habitualmente.

Graçolas

Também de graçolas de oportunidade se podem fazer os muros por essa cidade de Lisboa fora. Como neste caso, em que, de forma meio tosca, o nosso amigo auto-intitulado “Carolas” escreve na parede um trocadilho recorrente sobre o fim do consumo de drogas. Algo que, a avaliar pela (falta de) qualidade da gramática utilizada, arrisco dizer que seria coisa relativamente recorrente.

Chique

Adptando uma expressão francesa usada de forma recorrente, a declaração de um artista de que o que é realmente chique é a rua. Com alguma razão, afinal de contas, trata-se de um espaço de acesso mais democrático, onde qualquer um se arrisca a que todos vejam aquilo que fez. Ainda para mais, numa cidade como Paris, uma das grandes cidades mundiais e um vigoroso destino turístico, o que faz com que muita gente – desde que prestando a devida atenção, claro está – se tenha arriscado a ver esta frase estampada numa parede. Mais chique não pode haver.

A expressão

A expressão “Soltar a franga”, normalmente utilizada quando, ao fim de uma semana de trabalho, o comum cidadão pode finalmente fazer aquilo que bem lhe apetece, sem os espartilhos de horários, responsabilidades e ordens hierárquicas, acaba por ser um sinal menos positivo dos nossos tempos. Sem esquecer os méritos dos períodos de descanso, não é menos verdade que o uso exaustivo da expressão reflete que as semanas são bem mais difíceis de suportar, pela existência de fenómenos que se generalizaram nas últimas décadas, como o stress, a produtividade ou esse conceito híbrido chamado horário de trabalho, que faz com que muita gente trabalhe bem mais do que as oito horas diárias. Tudo isto aliado à necessidade de conciliar isso com outras responsabilidades extra-trabalho. Surge então a franga como símbolo de libertação de tudo isso. Valha isso.

O poder

As últimas semanas têm sido pródigas em notícias em relação ao exercício do poder, sejam as estratégias para prolongar a estadia no poder ou aquelas para o poder conquistar. A acrescentar ao chico-espertismo de Paulo Portas, são também um bom exemplo as notícias, que recebemos em simultâneo, de que os partidos do chamado “arco da governação” tentam arranjar uma plataforma de entendimento e que o Bloco de Esquerda tenta chamar PCP e PS para uma solução de Governo. De que resultam curiosos fenómenos como ver o PS a negociar a entrada num Governo de salvação nacional, enquanto vota favoravelmente moções de censura do PEV e anuncia que reunirá com o BE para discutir a possibilidade de um futuro Governo de Esquerda.

Esta situação em que estamos motiva obviamente alguma admiração e aversão de quem assiste de fora, mas também legitimará dúvidas sobre a quem servirá o exercício do poder em Democracia, que deveria ser utilizado, não ao serviço de corporações ou de suspeitos jogos de interesses, mas antes de um país e daqueles que vivem nele. Essas dúvidas sobre os enviesamentos do exercício democrático podem também ser expressas num Português menos polido e indignado, como sugere esta fotografia.

Na universidade

A minha experiência de tirar fotografias em locais públicos, com o fim de captar algo de interessante nas paredes, diz-me que universidades são dos locais onde há mais probabilidades de vir a ter sorte. Seja porque há maior tolerância com o fenómeno, porque as pessoas têm a cabeça mais desempoeirada e mais tempo livre ou porque o sangue na guelra motiva estas expressões públicas. Foi precisamente numa universidade que tirei esta fotografia, provavelmente escrita por alguém bastante feliz com a sua passagem por aquele espaço, aludindo a duas importantes vertentes: o conhecimento e a possibilidade de ouvir boa música. Tudo personificado no petiz aqui desenhado, certamente já a preparar-se para tais vivências.