A receita

É difícil uma pessoa deparar-se com este mural e não esboçar um sorriso. Quem escreve estas linhas neste blogue faz invariavelmente parte dessa minoria silenciosa chamada “pés de chumbo”, mas reconhece que quem tem o gosto e o dom da dança partirá certamente em vantagem quando se trata de curar mazelas, sejam elas as da alma e, em alguns casos, até do próprio corpo. Escrever estas linhas numa parede – ainda para mais, numa zona de grande diversão nocturna em Lisboa – é lançar uma mensagem de esperança, como se fosse um médico a aviar uma receita a um paciente, com a vantagem de não cobrar pela consulta e de dar uma receita sem efeitos secundários.

Ao avesso

É relativamente comum simpatizar com aqueles fenómenos que contradizem a lógica das relações de força que conhecemos, em que o fraco ganha ao forte – o célebre “David contra Golias” – ou em que a presa se vira contra o predador. Basta andar um pouco pelas redes sociais e perceber o regozijo – fundamentado ou não – causado pelo touro que manda umas sarrafadas no toureiro, pelo leão do circo que ataca o domador ou em que o cidadão indefeso que se vira vitoriosamente contra o assaltante. Nesse mesmo contexto surge esta imagem, em que um macaco surge agressivamente de arma em punho contra o caçador, alterando a relação de forças entre caçador e presa.

Bob Marley

Não é muito fácil encontrar por aí simples stencils, sem quaisquer palavras escritas. Quem o faz terá certamente a certeza que a imagem ali escrita será reconhecida sem grandes problemas. Como sucede com este stencil de Bob Marley, considerado o grande ícone do Reggae e um dos maiores nomes da história da Música. Quem se dá ao trabalho de produzir um stencil contendo a imagem de um artista é certamente porque nutre por ele grande admiração e, por vezes, não é preciso muito mais do que isso para dizer “presente” no espaço público.

Televisão

Podemos argumentar que a televisão já não tem a capacidade de influenciar a vida das pessoas como sucedia há uns anos atrás, que o tempo que antes se passava em frente à televisão é hoje passado na Internet ou que é mais difícil encontrar denominadores comuns no consumo de televisão, dada a diversidade de propostas e conteúdos que são oferecidos pelos serviços de cabo. Seja como fôr, nunca é demais pegar em slogans lançados no passado sobre a realidade que a televisão nos transmite, que remetem para uma espécie de alienação do público através de telenovelas, de futebol ou de notícias com real interesse reduzido, que poderão desviar as atenções do que realmente interessa, o que é mais flagrante no período de crise económica e social que vivemos. Essa é uma discussão certamente válida nos tempos que correm – basta fazer um zapping rápido pela oferta dos canais generalistas a um domingo à noite -, mesmo com o pequeno ecrã a perder terreno face a outros meios de comunicação. Algo que esteve presente na cabeça de quem pintalgou esta parede.

Revisitar as canções icónicas

“Em cada esquina, um amigo” tornou-se certamente um dos versos mais conhecidos da música portuguesa, por ter sido cantado por Zeca Afonso em “Grândola Vila Morena”, também uma das mais icónicas canções que por cá algum dia foram feitas. Canção que remete para um imaginário que se ia idealizando antes do 25 de Abril, onde Democracia e igualdade andariam de mãos dadas. A canção, essa, acabaria por ficar mesmo ligada à mudança de regime e tem sido revisitada várias vezes desde aí, de que são exemplo as ações de protesto – pacíficas, bem entendido – em que a canção era entoada no Parlamento ou em cerimónias com a presença de membros do atual Governo. Pese embora a canção remeta para tempos que não são de todo comparáveis com os de hoje, nunca é de mau tom recordar utopias antigas e perceber que ajudaram a mudar um pouco o rumo de Portugal.

As campanhas de desinformação

Não é preciso ter um mestrado em Ciência Política para perceber que é nestas alturas de maior aperto que surgem com maior vigor as campanhas de desinformação. É normal cortar nos apoios aos mais pobres, enquanto se alimenta a voracidade dessa entidade chamada os “Credores”, com o argumento de que quem não tem dinheiro não tem vícios e que houve gente pobre a chupar os recursos públicos. Não é de estranhar que se cortem em reformas e pensões de toda a população, mas deixando de parte os ex-titulares de cargos políticos, dizendo que essa é uma discussão à parte. Também não causa estranheza o rolo compressor que são as taxas de IRS, que deixam inequivocamente as pessoas mais pobres, sem olhar para o dinheiro que voa para os paraísos fiscais ou os lucros obtidos com atividade especulativa, como se não custasse mais a ganhar o dinheiro pelo trabalho do que aquele que se ganha na jogatana ou na trafulhice. Quem pintalgou esta imagem em vários pontos da capital não deixará de estar, por isso, bem apetrechado de razão.

Sonhar

Se há algo características que o ser humano vai perdendo à medida que os anos passam, a capacidade de sonhar acaba por ser uma delas. Seja porque a inocência própria da infância se perde ao fim de poucos anos, porque a vida acaba por se trazer uma realidade oposta daquilo que se vai idealizando ou porque a cabeça vai ficando preenchida com coisas bem mais triviais. Seja como fôr, quem disse um dia que é o sonho que comanda a vida não deixa de ter razão e é por essa razão que as pessoas se casam, que escolhem um determinado curso superior ou porque guardam dinheiro para uma viagem em particular. Sinal de que, em adultos, já não podemos sonhar em ser astronautas, pontas-de-lança do Benfica ou super-hérois, mas que ainda podemos idealizar alguma coisa e ir atrás dela. Por isso, é difícil não concordar com quem decidiu escrever esta frase numa parede.