A banana

A recente morte de Lou Reed teve o inevitável efeito de ressuscitar a discussão em torno da obra deste músico, a começar pela sua carreira nos Velvet Underground. Como em qualquer banda surgida há algumas décadas, acaba por vir sempre ao de cima a influência que tiveram na produção musical que se seguiu. Aqui e ali, falou-se também na relação com outros artistas, nomeadamente com Andy Warhol, que fez a capa do primeiro álbum dos Velvet Underground, em 1968, em que figurava uma banana, um objeto como tantos outros que acabariam por tornar conhecido este artista. Tal como sucede em várias intervenções em espaço público – basta recordar o que Banksy tem por hábito fazer – esta imagem viria a ser desconstruída nesta parede às portas do conhecido Marché des Puces de Paris, em que o dito objeto icónico serve de presa… a umas esfomeadas moscas.

Lisboa

Um gato sorridente, emergindo de um buraco, a lançar um abraço fraterno e carregado de alegria à cidade de Lisboa e a todos os que ali passam. Uma imagem que, passe algum exagero, está um pouco associada a aquilo que a capital transparece para quem a visita e que funciona até como recordação por quem cá passa e depois se vai embora. Dir-se-á que este gato andará um pouco alheado do estacionamento caótico, da sujidade das ruas, da poluição e de outras maleitas que afetam Lisboa, mas – que diabo – até as melhores cidades e os melhores destinos paradisíacos do mundo terão os seus defeitos.

Voltando a Saramago

Regressando aos murais pintados junto à Casa dos Bicos – um bom exemplo de como a arte nos muros pode interagir com o espaço circundante e estabelecer pontes com o que existe por perto – mais uma citação de José Saramago. Precisamente a frase de um dos seus últimos livros – “A Viagem do Elefante” – que serviria de pretexto para o documentário “José e Pilar”, também aqui devidamente ilustrado. Frase essa que remete para uma espécie de destino traçado à partida, com final e intervenientes bem definidos, mesmo que à margem dos seus protagonistas.

Os hippies

Um fenómeno surgido nos anos 60 nos Estados Unidos, vindo essencialmente da massa estudantil daquele país que se manifestava pela paz e contra a então guerra no Vietname, os hippies acabaram por se tornar um misto de moda daquela época com um modo de estar na vida, que se prolongaria no tempo. Algumas reminiscências acabaram por chegar aos dias de hoje, seja no vestuário ou na forma de ver a política ou os costumes. Tudo isto para chegar à conclusão de que, como qualquer outro grupo social e por mais meritórios que sejam os seus propósitos, tal não será suficiente para motivar a simpatia de todas as pessoas. Como de quem pintalgou este desejo para limpar o mundo de hippies. Não se pode agradar a todos, claro está.

A questão

Provavelmente desde o primeiro dia em que o ser humano começou a usar a palavra “felicidade”, que este passou a ser um tópico comum de discussão, transpondo para um simples conceito toda as inquietações do ser humano, em interrogações como “Afinal de contas, o que andamos cá a fazer?” ou “Vale a pena andarmos todos à batatada, se poderíamos ser todos amigos?”. Em primeiro lugar, o conceito de felicidade daria pano para mangas e o mais lógico será mesmo dizer que cada um terá o seu. Em segundo lugar, partindo desse mesmo princípio, há sempre margem para discussão se cada um saberá e conseguirá ser feliz à sua maneira. Por ser um daqueles conceitos de trazer por casa, também motivou esta interrogação por parte da pessoa que pintalgou este stencil, com um grande vidrão, simultaneamente depósito de verdades irrefutáveis e de incertezas, sem respostas para dar sobre o assunto.

Visconde da Apúlia

Pessoas mais atentas ao mundo da série B da televisão portuguesa estarão certamente recordadas do saudoso programa “Liga dos Últimos”, destinado a mostrar a todo o país as vicissitudes das competições amadoras de futebol e o lado pitoresco dos respetivos adeptos. Alguns desses apoiantes tornaram-se figuras de culto do programa e chegou mesmo a existir uma competição para eleger o primus inter pares em matéria de devoção ao clube, linchagem verbal aos adversários e aos árbitros e traços particulares de personalidade. Nessa elite, consta o nobre Visconde da Apúlia, fervoroso adepto do clube local e um constante indignado perante as injustiças da arbitragem em relação ao seu clube. Ainda assim, o que aqui está pintalgado é uma mensagem de paz. Afinal de contas, o futebol é um desporto bonito, mas não vale a pena levar o clubismo ao extremo.