A propósito de greves

Escrito num Português bastante direto e sem direito a intepretações ambíguas, este é um dos muitos epítetos ao protesto das massas que preenche as ruas do nosso país. Numa altura em que se verificam protestos e greves sectoriais nos transportes e comunicações – como é bem atestado por quem vive ou trabalha em Lisboa – e em que o verbo associado ao protesto anda bem solto, nunca é demais evocar uma linguagem a roçar o Nihilismo contra todo e qualquer alicerce do sistema capitalista em que, queiramos ou não, estamos mergulhados até ao pescoço.

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A cada passo

Sendo que o Mundo é feito de constante mudança – já dizia o poeta – o chamado Senhor João da RBL levava essa máxima ao extremo. É difícil saber de quem falamos ao dizer o seu nome, mas é possível aferir que se trata de alguém com uma opinião suficientemente válida para ser citada numa parede na Bica – que, convenhamos, não é a mesma coisa que constar numa vila meio perdida algures pelo país – e ser vista por milhares de pessoas.

A corrupção

Olhando com algum detalhe para esta fotografia, é possível aferir que se trata de algo que não foi pintado há muito tempo (a parede já havia sido pintada de branco, para apagar algo pintado anteriormente, e não há grandes sinais de desgaste), pelo que este epíteto lançado ao Governo certamente será dirigido ao atual Executivo liderado por Passos Coelho. Ainda assim, se dissesse que tinha sido escrito há cinco, 10 ou 20 anos, tal não seria também completamente descabido, dado que esta é uma espécie de mensagem intemporal que nunca passa de moda e remete para a velha ideia dos políticos desejosos de poder, com vontade de “encher os bolsos” e “distribuir lugares pelos amigos”, uma generalização que não se pode ter como válida para todo o universo dos políticos, mas que a classe dirigente do país não se tem esforçado muito por combater.

Lavagem

Um dos motes mais lançados a um universo meio disperso de destinatários é precisamente o que está escrito nesta parede. Aliás, o apelo a uma espécie de manutenção e upgrade do nosso cérebro surge um pouco por todo o lado: nestes muros de rua, em campanhas eleitorais mais arrojadas ou até em campanhas publicitárias, num claro intuito de despertar a mudança como se tal fosse conseguido com um simples clique. Neste caso, a imagem de um jovem junto a uma máquina de lavar roupa será algo mais conseguido do que ver o próprio com a cabeça dentro daquele eletrodoméstico. O lacónico “Drogados” com o qual alguém quis catalogar aquela pintura mostra que este tipo de intervenção ainda tem bastante caminho para conseguir total tolerância, mas que, neste caso em particular, dá quase vontade de rir.

O interesse

Um pequeno subsídio para a compreensão desta corajosa declaração: uma zona residencial de difícil acesso e apenas visível a quem efetivamente habita no prédio onde foi escrita e pouco mais. Sendo assim, é possível arriscar que o destinatário (ou destinatária) da mensagem terá tido uma surpresa ao ver isto na parede do prédio onde habita, o que terá certamente causado um misto de embaraço e orgulho meio disfarçado. Quem a terá escrito terá expresso de forma eloquente a falta de preocupação com outras coisas, apenas quem morará no referido prédio terá realmente interesse.

A galinha

Isto nada tem de novo, mas é um facto que o País continua meio em suspenso em relação à eventualidade de conseguir parte da sua independência financeira e económica, que poderia advir com o fim da tutela da Troika em Portugal, mesmo que o próximo Verão traga um programa cautelar, uma espécie de versão mais “light” do que temos tido desde 2011. Seja como for, lá vêm à liça os suspeitos do costume: os mercados, os credores, os dirigentes das três instituições que mandam em Portugal ou os governantes portugueses, que trazem o inevitável medo que algum deles meta a pata na poça quando pisa solo estrangeiro. Uma boa altura para pensar em soluções milagrosas para o país e acabar com este constante impasse. A conhecida galinha dos ovos de ouro, algo improvável pelas leis da Natureza, é uma boa metáfora do que seria necessário. E, neste caso, ninguém se importaria que fossem criadas de forma intensiva em gaiolas sobrelotadas.

Em novembro

Não é propriamente um segredo da Ciência Política que os meses de abril e maio são aqueles em que há uma tendência mais “esquerdizante” – perdoe-se-me o neologismo – e um ambiente mais favorável ao protesto popular e à evocação de conquistas sociais passadas. A acrescentar à celebração internacional do Dia do Trabalhar, importa não esquecer o nosso 25 de abril e, falando em fenómenos de maior dimensão, do Maio de 68. Por isso mesmo, é uma altura que, durante o resto do ano, serve de referência para protestos e fenómenos associados à luta popular, da mesma maneira que somos assaltados pelo espírito de férias quando pensamos em agosto ou em festejos natalícios quando dezembro vem à memória. E é precisamente em novembro que estamos a meio do percurso entre um abril que já passou e outro abril que aí virá. E, fazendo fé nesta pixagem, haverá quem tenha esse espírito presente quando o caminho ainda vai a meio.