O emaranhado de nós

Por entre os apelos, escritos aqui e por ali, para que o ser humano se limite a seguir os seus sonhos e a sua felicidade, deixando que o universo faça o resto do seu caminho, também lá vão surgindo análises um pouco mais realistas. Como esta constatação de que as coisas não são tão simples quanto por vezes se apregoa e que, para que as coisas sigam o seu trajeto, é preciso muitas vezes desmanchar os tais nós, tal como um daqueles estranhos novelos de lã, que não se sabe onde começam ou onde é que vão dar. Quem sabe se a frase não terá sido escrita por alguém que estaria a passar exatamente por isso nesse momento.

Bebericar

Não é incomum encontrar pinturas murais e afins em estreita relação com o sítio onde são pintadas. Esta espécie de relação semiológica que muitas vezes se quer estabelecer não deixa de fazer algum sentido e ajuda a reforçar a mensagem: se é para escarnecer de prédios abandonados, mais vale fazê-lo no próprio prédio do que três quarteirões ao lado , da mesma maneira que falar sobre a universidade tem mais lógica no próprio recinto do que a 500 metros de distância. Isto a propósito desta moça bebericando um copo, com ar de quem vê o mundo a passar de frente. Faz obviamente sentido colocar isto num espaço de diversão noturna da capital onde se bebem copos em plena rua e se vê o mundo – ou, vá lá, magotes generosos de pessoas – para onde quer que se olhe. Esta moça poderia assim ser qualquer frequentador daquela zona. O que faz deste stencil uma boa imagem do sítio onde foi feito.

Facetas da crise

Uma das faces da crise que se abateu sobre Portugal nos últimos anos tem a ver com a perda da habitação própria por parte das famílias, que tiveram de entregar as suas casas aos bancos por falta de pagamento. Sempre por uma redução da capacidade financeira em comparação com o período em que o empréstimo foi contraído, situação motivada por um leque de situações, que vai desde a perda de emprego até às facilidades excessivas dadas pelos bancos na concessão de empréstimos. Este fenómeno foi transversal, mas obviamente mais visível junto da classe média nas grandes áreas metropolitanas, e ajudou a criar uma espécie de nova paisagem urbana, onde, a juntar a marquises ou à roupa nos estendais, também numerosas placas de “Vende-se” são bem vistas ao longe, sabendo-se já que algumas dezenas ou centenas de milhares destas casas nunca encontrarão dono, pelo simples facto de não haver população em Portugal suficiente para nelas morar. Este esboroar de expectativas em relação a algo tão simples como uma casa, face ao peso incomportável das despesas, está assim bem simbolizado neste stencil.

Hulk

Como todos os super-heróis com que fomos convivendo – se é que o termo se pode usar – também o verdão Hulk tem uma história por detrás dos seus super-poderes: o facto de ter sido atingido por raios gama quando era adolescente. O resultado é o que se conhece: um ser que triplica de tamanho e se torna uma criatura verde quando tal se proporciona, sempre do lado do bem contra mal, o que faz dele e dos restantes colegas de profissão seres profundamente altruístas e servidores da causa pública. Não se sabe por que motivo este Hulk irado convive lado a lado com insultos aos titulares de cargos públicos, nas paredes das imediações de uma das mais concorridas estações de comboio lisboetas, mas é bem possível que haja algo para meditar – o que é preciso é um Hulk em cada esquina.

A origem

No Mundo Ocidental, fomos crescendo entre duas grandes teorias sobre a origem do planeta onde todos vivemos e arredores: aquela que diz que uns meteoritos tiveram o azar de chocar uns contra os outros e deram origem a esta bola gigante de terra e mar e a outra que remete para um ser acima de todos nós e de qualquer suspeita e que estalou uns dedos e cá meteu um casal debaixo duma árvore, do qual todos descendemos. A partir daí, cada uma dessas teses vai fazendo o seu caminho, mas há uma figura que ainda marca o Mundo Ocidental, nascida há 2013 anos, da qual ninguém parece duvidar da sua existência. A forma como Jesus Cristo terá chegado ao Mundo origina diferentes leituras, consoante as teses que cada um vai seguindo. Mas esta original pintura mural lança mais uma tese sobre a origem de Jesus Cristo, nem mais nem menos sob a forma de uma espécie de incubação efetuada por uma civilização extra-terrestre, a remeter para a ficção científica mais rebuscada.

Sobre a dívida

Regressando aos epítetos que enchem essas ruas em relação à dívida que penosamente andamos a pagar há alguns anos, mais uma prosa bastante esclarecida face ao destino a dar a essa mesma dívida. O destinatário da mensagem não será certamente o incauto contribuinte, mas provavelmente aqueles que andaram a praticar juros usurários sobre a dívida pública da Nação e quem nada fez para combater tal cenário. No meio de tal disputa, seria de bom tom colocá-los todos a discutir argumentos ao estilo do velho oeste, com duelos ao pôr do sol e armas em punho. Sendo que tal não seria possível nos dias que corre, resta a todos nós pagar pelas falhas alheias.

Os senhores

Regressando aos trabalhos com que o coletivo Dalaiama vai espalhando magia pela Grande Lisboa, uma série de sujeitos de cartola a rirem-se a bandeiras despregadas. Os velhos senhores do Mundo, munidos de um objeto que simboliza bem mais do que algo do que a simples cobertura capilar, numa espécie de grande paródia enquanto se referem ao resto da Humanidade que os terá ajudado a enriquecer. Em bom rigor, se pusermos caras conhecidas nesta bonecada – nem precisaríamos de sair de Portugal, bastariam os Ulrichs, os Dias Loureiros ou os Jorges Coelhos desta vida -, teríamos uma imagem carregada de sentido.