Pensar

Regressando às imediações da Casa José Saramago, mais uma frase do escritor português laureado com um Nobel da Literatura, mostrando que pintalgar paredes por esse país também pode contribuir para enaltecer os valores da Cultura. Neste caso, a frase em causa não remete para uma obra em particular, mas antes para uma entrevista da qual resultou um livro. Uma citação que permite constatar o óbvio: nos tempos que correm (e aqui a palavra “correr” aplica-se como uma luva), com cada vez menos tempo disponível para digerir aquilo que o Mundo nos oferece – seja a vertigem da informação ou a panóplia de tecnologia que nos permite estar mais perto do outro lado do mundo do que do vizinho do lado – , parece haver cada vez menos tempo para pensar, refletir, divagar e chegar a algum lado.

Grandes obras

Como este blogue se encarrega de provar, também de grandes obras se faz a história da Arte de Rua, em que locais públicos e conhecidos albergam grandes intervenções. Em Lisboa, temos como melhor exemplo as grandes pinturas na Avenida Fontes Pereira de Melo, esta fotografia mostra uma grande obra em Paris. Neste caso, um grande Salvador Dalí junto ao Centre Pompidou, referência a nível mundial de Arte Contemporânea (da qual o próprio Dalí é um dos nomes mais representativos). Uma boa conjugação entre um espaço mais “institucional” e algo visto mais “underground” num mesmo local.

A História

Meio à socapa, quase que a querer passar meio despercebido, esta perseguição escrita em stencil, protagonizada por um irado fulano de bastão na mão a querer bater num nazi, numa produção meio estilizada com recurso aos respectivos símbolos. Numa altura em que, por essa Europa fora, algumas tendências populistas e a piscar o olhos às teses mais autoritárias vão ganhando terreno – salvaguardando as devidas distâncias com o que as décadas de 30 e 40 trouxeram ao Velho Continente -, nunca é demais recordar a História e o que ela tem para ensinar.

Distração

Embora a televisão não tenha, nos dias de hoje, o grande peso social que tinha há algumas décadas atrás – uma perda para qual a Internet e as redes sociais deram um forte contributo – é um facto que continua ser um veículo de comunicação poderosíssimo. O que motiva sempre análises e críticas sobre o seu papel social, como o facto de distrair mais do que instruir ou informar quem dela usufrui. Facto é que associamos a televisão mais a um veículo de entretenimento do que a um meio de informação e reflexão – basta comparar o tempo que cada uma destas áreas ocupa nos canais generalistas – , como é frisado por quem produziu este stencil numa parede lisboeta.

Sapo Cocas

No meio de tanta incitação à revolta, conselhos de auto-ajuda, declarações de amor ou frases que só fazem sentido na cabeça de quem as escreve, também sabe bem regressar a referências de infância, que, em muitos casos, ficam para a idade adulta. Neste caso, o famoso sapo Cocas, revisitado recentemente no filme “Muppet Show”, prova de que é uma personagem inter-geracional e que não perde atualidade. Exemplo disso é ter tido direito a ser pintado numa parede lisboeta, coisa que, posso afiançar, não está à altura de todas as personagens.

Enforcados

Tem sempre alguma piada olhar para pinturas feitas a duas mãos, quando um segundo interveniente faz questão de dar outro sentido ao que o primeiro quis fazer. Olhando com algum cuidado para esta fotografia, vemos uma série de fulanos sem rosto devidamente engravatados, com uma corda ao pescoço. Um olhar pouco simpático sobre quem normalmente está associado a tais vestes, sejam as pessoas do poder ou quem exerce profissões que não serão as mais excitantes. A crítica ao moderno estilo de vida estava portanto feita, quando alguém decidiu lançar o repto e dar o epíteto de “Drogados” a tais cidadãos enforcados, fazendo desta parede uma espécie de dedo indicador ao vício e à desgraça alheia.

Religião Católica

A Igreja Católica é, por norma, um alvo relativamente fácil quando a intenção é lançar farpas contra as religiões organizadas. O facto de ser a religião mais enraizada no Mundo Ocidental, a existência de um líder físico na figura do Papa ou a quase inexistência de represálias contra quem a satirize ou critique abertamente, fazem com que quem tenha razões para apontar o dedo o faça sem grande pudor. Bastará comparar os sarilhos em que se meteram pessoas que, por esse mundo fora, andaram a fazer caricaturas de Maomé e outras diabruras semelhantes. Seja como for, sendo as pinturas murais muitas vezes um catalisador de críticas por parte de quem as faz, seria pouco exequível que a Igreja Católica não viesse à baila de vez em quando. Como é aqui o caso, mesmo que o apelo ao voto em Jesus Cristo soe a coisa meio atabalhoada.