Dormir

Ajuda a perceber esta fotografia o facto de ter sido tirada num quintal de uma espécie de vivenda. Em que é que isto dá mais ou menos valor ao que aqui está? Acreditando na provável hipótese de não ter sido o proprietário da casa a pintar isto, então o que aconteceu é alguém se ter visto obrigado a entrar em propriedade alheia, para exprimir um desejo de uma boa noite a quem lá vive. Este mundo também é composto de gente bem intencionada.

40 anos

Os últimos anos trouxeram coisas nefastas para o país como o desemprego e a pobreza, o crescimento das disparidades económicas e sociais, a perda de direitos sociais, a perda de qualidade de serviços públicos ou o aumento do sentimento de injustiça. É certo que há muitos motivos para dizer mal dos tempos que vivemos, mas seria desonestidade intelectual dizer que o País não deu um salto grande nas últimas quatro décadas. A possibilidade de a comunidade escolher os seus representantes e poder participar ativamente nas decisões, o acesso universal à Educação e à Saúde, a melhoria de infraestruturas, a liberdade de expressão e de criação ou a maior abertura ao Mundo são alguns dos exemplos do que de bom os últimos 40 anos trouxeram ao país. 25 de Abril de 1974 equivale também a evocar muitos nomes, mas o de Salgueiro Maia talvez seja o mais consensual: não só pelo seu papel nas movimentações militares do dia, mas também por perceber o seu lugar na História e ter saído discretamente de cena, não caindo no erro de protagonismos desmesurados e descabidos face ao desenrolar da História do país nos anos seguintes.

Amor e cargos autárquicos

É sabido que a antipatia por Rui Rio se notava mais por quem morava no Porto ou nos arredores, pelo que causa estranheza ver o seu nome numa frase escrita em plena Lisboa. Mas prova-se que os sentimentos, bons ou maus, também podem atingir alguém que está a 300 km de distância, que até pode nem se conhecer pessoalmente. A contrastar com todo este ódio, o amor que se sente pelo destinatário (ou destinatária) da mensagem. O uso da mesma frase para descrever o amor por outra pessoa e o ódio por detentores de cargos autárquicos é algo com muita imaginação, deixando a margem para a estupefacção, ao ponto de alguém ter acrescentado um ponto de interrogação. Uma perplexidade que, diga-se de passagem, não é descabida.

A festa

Perdoando-se o facciosismo que nos impede quase sempre de falar de futebol de forma isenta, este é um fim-de-semana futebolisticamente importante para quem escreve estas linhas e, não é exagero dizê-lo, para alguns milhões de portugueses. É o fim-de-semana em que o Benfica pode acabar com quatro anos de jejum de títulos de campeão e, mais importante do que isso, pode pôr fim ao fantasma que assombra o imaginário dos adeptos desde há um ano, quando as expectativas de títulos se esfumaram em golos nos últimos minutos do jogo. Para estes dias, espera-se então uma grande festa por todo o país e até no estrangeiro, com o seu epicentro na Rotunda do Marquês de Pombal, o tal que já está reservado há alguns dias.

O fascismo

Por estes dias de abril, com o 25 a chegar – ainda para mais a aproximar-se os 40 anos da data da Revolução – é normal virem mais à liça certo tipo de termos associados aos últimos tempos do Estado do Novo e ao 25 de Abril e agitado período subsequente. A palavra “Fascista” não poderia ser usada antes da instauração da Democracia, mas foi bastante gasta nos tempos subsequentes para classificar tudo quando estivesse ligado à Ditadura ou, no limite, quem não estivesse no pólo oposto. Certo é que, ainda hoje, é usada de forma pejorativa em relação a tudo quanto possa soar a autoritário ou tenha algo a ver com o “Antigamente”. Como nesta assertiva frase, escrita em muro de universidade – antigos palcos de lutas com os polícias, também eles, “fascistas – , em que a maldita palavra nem teve direito ao uso do bom Português.

Vinho de mesa

Utilizar um vinho corrente como mote para se pintalgar algo numa parede é algo, em primeira análise, original. Pegando no La Villageoise – popular vinho de mesa francês, um equivalente ao nosso Casal da Eira, mas com uma maior abrangência – e no lettering da Coca-Cola, é aqui feita uma interessante antítese entre o que há de mais tradicional e enraizado num país e uma outra marca estrangeira que, não obstante ter uma larga história soa sempre a algo moderno, com um propósito que será certamente o de criticar esse grande vilão capitalista encarnado na popular marca americana de refrigerantes. Um pequeno pormenor: esta fotografia foi captada no exterior de um mercado de antiguidades, não existirão certamente muitos mais sítios mais simbólicos do que este para pintar algo do género.

A inveja

Já a Igreja Católica cataloga a Inveja como um dos sete pecados capitais, lado a lado com coisas pouco nobres como a ira ou a preguiça. O que não impede de ser algo mais ou menos presente no nosso dia a dia, sejamos nós a protagonizá-la ou a sermos vítimas dela. O olhar em demasia para o vizinho do lado incide em coisas tão simples como o emprego, a vida que leva ou os bens que possui. Até a sabedoria popular se encarregou de demonstrar isso mesmo, graças a provérbios do calibre de “A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”, que, diga-se em boa verdade, também existe noutras línguas – o equivalente em Inglês substitui a qualidade da galinha pelo tamanho da relva do quintal do vizinho. Dizer que a inveja mata é talvez excessivo, mas fica bem assinalar este defeito numa parede, para que todos possam nele reflectir.