A dívida

A Troika terá abandonado o país há alguns dias, mas não deixa de ser verdade que a herança da sua presença se manterá bem viva durante os próximos anos. Deixando consigo um aumento de desigualdades, de carga fiscal ou de desemprego. Por entre as críticas que se foram ouvindo a propósito do empréstimo de 85 mil milhões de euros que fica por pagar, a mais ouvida dizia que tal empréstimo tinha essencialmente como objetivo salvar a pele de bancos e instituições financeiras com relevantes participações em obrigações de países intervencionados. Posto isto, é legítimo questionar o que os comuns cidadãos têm a ver com todas estas arriscadas jogatanas, que nos deixaram a todos com menos dinheiro nos bolsos e uma dívida cada vez maior em relação ao PIB. Uma dúvida levantada por este stencil e um Paulo Portas transformado em rato Mickey.

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O gelado

A artista Maria Imaginário, conhecida por pintar coloridos e apetitosos doces pelas paredes, faz aqui das suas numas escadarias lisboetas. Neste caso, com este vistoso gelado, de ar feliz – passe a personificação – e a cantarolar o conhecido fado de Carlos do Carmo “Lisboa menina e moça”. Não será pela oferta de gelataria que a capital portuguesa será conhecida, mas Lisboa tem o condão de agradar a quem nela vive e a quem a visita, mesmo que se tratem de gelados.

O panda

Quando se tenta pegar em animais com outros fins que não a sua pura representação no meio natural, a coisa acaba por ficar um pouco enviesada. Para dar um bom exemplo, quando se utilizam animais em desenhos animados: fica sempre de lado o seu instinto que os faz matar para sobreviver, os defeitos estéticos próprios da espécie ou a impossibilidade prática de poderem viver com seres humanos num mesmo espaço – no fundo, fazendo deles quase seres humanos. Por essa razão, lá nos fomos habituando a ver pessoas montadas em tigres, dinossauros a viver em quintais ou cães a falar. E, tal como qualquer outro animal, o panda lá teve direito à sua fama de bicho amistoso e pacato, ao qual nos poderíamos abraçar quando nos apetecesse. Por alguma razão, é usado nesta espécie de apelo pacifista para os seres humanos, piscando também o olho à multi-culturalidade.

Abrir os olhos

O incauto transeunte vai na rua e tem, de repente, dois olhos bem arregalados pintados numa parede. Esses olhos bem abertos constituem, no fundo, o repto lançado a quem passa. Repto esse que passamos a vida a ouvir, seja recorrendo a esta frase, mas também a outras bem batidas, como o “Põe-te esperto!” ou o “Abre a pestana!”, maneira de alertar para os perigos que andam por aí, desde os meliantes que esvaziam o bolso do pacato cidadão até aos grandes e poderosos senhores do Mundo, passando pela grande amálgama de vigaristas com que convivemos no nosso dia-a-dia. O alerta, esse, é daqueles que nunca perde atualidade.

O insulto

Nenhum homem gostaria de estar na pele do pobre destinatário desta frase. O uso do Superlativo Relativo talvez permita concluir que quem terá escrito isto foi uma mulher – é pouco comum o uso de tais recursos gramaticais por parte de homens, ainda para mais quando se trata de frases na via pública – , provavelmente bastante aborrecida com o destinatário. Não será o topo do insulto que se pode chamar a alguém – convenhamos que chamar alguém de chato é melhor do que lançar insinuações sobre a integridade moral da respetiva mãe – , mas é certo que incomoda. Poder-se-á especular sobre um casal desavindo, sobre um tipo com fracas competências sociais ou também sobre a falta de paciência da escritora da frase para com as outras pessoas. Seja como fôr, é sempre chato – passe a redundância – ser confrontado com tais coisas.

Miguel

Tirada à saída de uma concorrida estação de metro em Lisboa, esta foto parece mostrar um quadro de cumplicidade e confiança por parte de um casal. O Miguel, que fará parte da grande massa anónima que todos os dias circula nos corredores daquela estação, tem direito a uma jura de amor eterno, escrita apenas para ele. Em tempos tão incertos e voláteis como estes que vivemos, não é fácil arranjar coragem para prometer algo até à eternidade. Haja alguém que tem razões para encarar os dias e as viagens nos transportes públicos com outro ânimo