A liberdade

Costuma dizer-se que, por muitas liberdades passíveis de serem tiradas a alguém – e aqui sem ironias face às notícias sobre José Sócrates – a liberdade de pensamento mantém-se inviolável e uma espécie de último reduto face a ameaças exteriores. Algo de tal maneira inato a seres humanos dotados de massa cinzenta que nem sequer nos damos conta. Quem escrevinhou esta frase certamente estará também ciente da sua liberdade, seja de pensamento ou de ação, e pouca vontade terá de prestar explicações a terceiros sobre o sentido ou a intenção do que faz. Curiosamente, escrita numa zona por onde ninguém anda sozinho.

Ídolos

Ao que parece, a carreira de Michael Jackson vai de vento em popa, em matéria de receitas. Só em 2014, os números cifram-se em 120 milhões de euros. De carreiras bem sucedidas na música está o mundo recheado, mas estranha o facto da morte da pessoa Michael Jackson ter dado um relevante impulso à obra do artista Michael Jackson. Isto é, de facto, confuso, mas a prova de que a indústria musical como muitos de nós conhecemos até há década e meia, é coisa que nunca mais veremos e está recheada de idiossincrasias. Causa estranheza pensar no caráter mais efémero das carreiras dos tempos que correm e que é difícil idolatrar alguém quando se segue essa pessoa diariamente nas redes sociais, mas é sem dúvida mundo novo que se abriu, em que cada artista é mais autónomo para chegar às massas, sem estar tão dependente das grandes editoras. O que tem isto a ver com este stencil, apanhado meio à socapa num parque público? O facto de esta imagem ainda fazer parte de tempos em que não havia Internet e os ídolos eram seguidos à distância e vendiam milhões de discos por esse mundo fora. Michael Jackson fez parte desses tempos e boa parte dessa legião de fãs ainda vem dos tempos em que se gastava dinheiro em vinis e CD, provavelmente o grupo a que pertence quem decidiu deixar esta marca na parede.

Flores

Em matéria de paredes pintadas (e não só) no Bairro Alto vê-se de tudo. Para além de coisas muito pessoais, que pouco ou nada dizem aos restantes transeuntes, ou de apelos ao derrube do sistema, também por ali se vêm coisas simpáticas e despretenciosas. Como esta parede branca, de onde sai um braço recheado de flores às senhoras que por ali passam, um piscar de olhos a tempos onde a igualdade de género era um conceito um pouco mais vago, mas onde havia mais lugar para este tipo de mimos.

A montanha

Por aqui, nada escrito. Antes uma das mais originais forma de aproveitamento do que de mau pode acontecer ao espaço urbano. Neste caso, um pouco de tinta e de mais alguma coisa que caiu da parede – perdoe-se-me a imprecisão, mas obras está longe de ser algo que eu domine minimamente – que poderia ter sido mais um defeito num exterior do prédio para servir de montanha a estes corajosos montanhistas que desafiam a lei da gravidade, para encontrar a flor lá bem no topo. Pelos vistos, haverá – e bem, diga-se – quem veja nestas falhas de construção uma oportunidade.

A festa

Sem grande pejo de lançar tais anúncios numa das mais agitadas avenidas lisboetas, a autoria desta frase poderá certamente ser associada a alguém que andará bem com a vida e pelos prazeres que esta proporciona. A começar pelo próprio corpo, uma espécie de palco para toda essa amálgama de boas experiências. Ao incauto transeunte pouco mais restará parar, ver e tentar imaginar o quão agitada será a vida de quem pôs mãos às obra para anunciar tantar felicidade ao mundo.

Os tipos do Erasmus

Quem escrevinha estas linhas e tira estas fotos nunca esteve mais do que três semanas fora de Portugal, pelo que coisas como Erasmus soam sempre a aventuras tiradas por estranhos ou são, no máximo, uma razão plausível para já ter passado algumas férias fora de Portugal com direito a estadia paga em casa de quem andava em tais andanças. Ainda assim, é difícil escapar ao óbvio: o programa destinado a proporcionar aos estudantes uma experiência fora de portas, em território europeu, é um passo em frente em termos de abertura dos povos europeus uns aos outros, permitindo em idades mais tenras chegar perto do chavão “identidade europeia”.

Para além de tal lado institucional, esta experiência estará mais associada, justa ou injustamente, a toda uma série de experiências que pouco ou nada estão relacionadas com aprendizagem, sejam os longos passeios pelos países de acolhimento, as notas dadas um pouco em cima do joelho ou as festas que juntam representantes de meia Europa, que certamente ficam na memória de quem passou pela experiência. Como alguém se lembrou de lembrar nesta parede. Não é por acaso que a fotografia foi tirada em pleno Bairro Alto.

A pobreza

Por entre os apelos contra o poder do dinheiro, seja nas nossas pequenas vidas ou nos dramas que assolam o nosso grande mundo, lá vão grassando vozes de ira e indignação contra a inversão de valores e contra o papel que o dinheiro devia ter: o de ser um instrumento nosso para chegarmos a algum lado e não exatamente o contrário. Esta frase, escrita num tom algures entre o desabafo e o paternalismo, inverte os conceitos de pobreza, que normalmente associamos a quantidades baixas de dinheiro e que aqui aparece como sendo um defeito de quem soma mais zeros na conta bancária.