A natureza

Será difícil olhar para esta imagem sem imaginar de seguida um cenário a um certo psicadelismo. Noutro contexto, seria complicado ter, lado a lado, ursos pandas e girafas, com corpos de animais e árvores quase ligados e ainda uns peixes metidos ao barulho. Acrescente-se a isto os campos recheados de cogumelos, aqui não como elemento gastronómico mas com outras valências mais sensoriais, e que ajudam a finalizar todo este cenário.

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A calma

Uma fotografia que quase parece estar alinhada com a anterior, reclamando urgência no avanço de alguma coisa. Neste caso, chamando moles e gente sem alma aos cidadãos pacíficos deste país. Normalmente conhecidos por terem uma calma muito particular, aparentando um estado de acalmia mas com uma raiva mais ou menos escondida, nas mais variadas situações, desde as paragens de autocarro até à reação ao estado do País, nunca esquecendo os verdadeiros case study sociológicos que são as salas de espera de consultórios ou as repartições de serviços públicos. O tal povo que Miguel Torga bem descreveu como a “comunidade pacífica de revoltados”.

A urgência

Tal como numa boa parte das fotografias que aqui são mostradas, também neste exemplo há algum espaço para a ambiguidade. Há um sentimento de urgência e de dizer que é chegada a altura de fazer algo, mas sem se saber ao certo o quê. A experiência que se vai ganhando a olhar para tais escritos dará margem para especular: uma espécie de incitação à revolta das massas perante o estado das coisas ou o fazer alguma coisa para mudar apenas a vida de quem escreveu isto. Ou seja, é chegada a hora de mudar o país ou o mundo ou então de mudar a própria vida. Mas é certamente alguém que não disposto a esperar. Valha-nos isso.

A girafinha

Esta frase não está escrita num sítio propriamente alto, mas destina-se a uma mulher alta e esguia, aquilo a que se chamaria no passado, uma “Olívia Palito”. Caso contrário, faria pouco sentido ter a alcunha, ou nome carinhoso, de girafinha. Seja como fôr, trata-se de alguém que tem a honra de ter uma frase escrita pelo ex-companheiro, a pedir que volte. Um cenário quase de filme, mas na vida real.

Os super-mauzões

Volta e meia, é dado aqui algum destaque ao artista (ou à artista) que escreve frases recheadas de indignação nos pilares das paragens de autocarro em Lisboa. O estilo quase nihilista, os locais de escrita, os temas em questão e o traço permitem afiançar que há quase um monopólio em matéria de pintura de tais pilares. Abreviando razões, aqui mais uma interessante metáfora recorrendo ao imaginário dos super-heróis, normalmente pessoas com poderes sobre-humanos que lutam pela justiça e combatem os mauzões, mas aqui invertendo esse imaginário do avesso e remetendo para os partidos que têm governado o país nas últimas décadas – o chamado “arco da governação”. Aqui, estes super-poderes são usados, não para benefício da comunidade, mas antes para encher bolsos destes mauzões da fita. Devidamente enfeitados pelos símbolos do mal, para não restarem dúvidas.

O mocho

Apesar de a maioria das coisas que aqui são mostradas serem feitas por anónimos – mas que não perdem o seu interesse por causa disso – , também de trabalhos de autor se faz essa grande amálgama de que é feito o espólio deste site. Aqui, sob a mão de Bordalo II, alguém com raíses artísticas na família, mas não os conhecidos Bordallo Pinheiro. Neste caso, sob a forma de um mocho construído a partir de partes de automóveis antigos. A partir do que seria, em condições normais, considerado sucata, acabou por ter uma segunda vida, ao encher as paredes de um prédio em mau estado na zona histórica da Covilhã, mostrando que se pode ir um pouco mais longe na utilização de materiais para adicionar valor ao espaço público.

A cantiga

Um rato empunhando um cartaz em plena rua, dizendo estar farto de ouvir sempre a mesma cantiga, soa um pouco à velha e costumeira indignação portuguesa de passar a vida a lamentar-se e dizer que está tudo mal e nada muda. Será difícil saber a que cantiga se refere a pessoa que decidiu usar um rato para expressar o seu desagrado, mas, a acreditar pelas recentes notícias de escândalos em Portugal e a expressão da tal indignação costumeira, talvez o estado aqui do país seja uma hipótese credível.