A adaptação

A conhecida citação de Descartes – “Penso, logo existo” – a fazer apelo à razão humana em detrimento de outros atributos da espécie, deu azo a muitas adaptações ao longo dos tempos. Como é o caso desta, que é precisamento o oposto daquilo que o filósofo francês advogava neste silogismo. Haja quem ponha o sentimento à frente de tudo o resto, como sucede com quem pintalgou de forma meio tosca esta frase.

O FMI

Pese embora não ter sido uma das mais brilhantes etapas da História do país, a intervenção da Troika em Portugal teve, ao menos, o mérito de permitir a produção de muita prosa e poesia por essas ruas fora, como este blogue tem demonstrado. À falta de outras formas de mostrar desagravo perante o impacto de tal intervenção, restava então espalhar o descontentamento nas paredes públicas. O tridente malvado FMI-BCE-Comissão Europeia já saiu formalmente de Portugal, mas o fantasma parece não ter desaparecido, como aqui se demonstra. E, o facto de outros países andarem a fazer contas com tais entidades, veja-se a Grécia, mostra que o FMI e seus comparsas continuam aí para as curvas.

Os reis

Não se sabe se haverá aqui uma espécie de aura profética, mas a forma assertiva como se anuncia a queda dos reis parece deixar pouca margem para dúvidas. Aqui os reis não como figuras representativas do sistema monárquico, mas mais como os poucos reis que, um pouco por todo o mundo, mandam em tudo o resto. Pode soar a exagero, mas recentemente uma notícia ajuda a sustentar a tese da existência de tais reis, ao saber-se que 1% da população mundial mais rica terá em breve mais riqueza que os restantes 99%. Sabe-se que tais reis não caem de um de dia para o outro quais maçãs podres de tão maduras. Fica então o repto.

Revisitar

A obra de Zeca Afonso teve direito a um novo fôlego e a uma espécie de revisitação após a crise que varreu Portugal no início da presente década. Teve o lado positivo de demonstrar que a obra, quando tem qualidade, ganha o direito a ser eternamente recordada, mas o reverso da medalha foi precisamente o facto de nos lembrarmos que a canção de intervenção não perdeu assim tanta atualidade e que hoje nos deparamos com problemas parecidos com aqueles que serviram de inspiração a muita desta obra. Esta revisitação também passou por algumas paredes portuguesas, como aqui é mostrado com aquele que é o verso mais conhecido de “Grândola, Vila Morena”, precisamente a canção que voltou a ser usada nas ruas tantos anos depois.