Introdução

Começa como uma brincadeira: os muros pintalgados ou escrevinhados nunca terão gerado em mim indiferença –  a começar nos grandes murais políticos que ainda restaram muitos anos depois dos tempos conturbados da Revolução  – , mas quando se começa a ter à mão um telemóvel com câmara fotográfica sempre que se sai à rua, é mais fácil captar aquilo que chama a atenção. Junte-se a isto o andar muito por Lisboa a pé e em transportes públicos, aliado a um olhar clínico e um sentido de oportunidade relativamente aguçados, e está criado o caldo ideal para se ir criando um crescente arquivo de fotografias. O destino inicial de parte dessas fotografias foi mais ou menos o mesmo que a generalidade das fotografias tiradas pelas pessoas hoje em dia: o Facebook. As reações que ia recebendo, bem como a perceção de que a grandiosidade do que se faz por essas ruas merece mais do que um álbum criado para os amigos, fizeram com que um blogue acessível a todas as pessoas fosse um espaço mais adequado para essas fotografias.

O Vozes da Rua tem como objetivo colecionar aquilo que chama a atenção no espaço urbano: as frases escritas nas paredes, os stencils repetidos à exaustão, os graffitis bem produzidos, a intervenção urbana digna de realce ou as pinturas murais a recordar tempos em que a luta política se fazia no espaço público. Aquilo que é feito por todos aqueles que, não obstante os meios tecnológicos que hoje em dia existem, escolhem o espaço público para serem ouvidos: poetas, indignados, gente com sentimentos à flôr da pele, anarquistas, artistas com talento ou gente com imaginação a mais. No fundo, as vozes que se fazem ouvir nas ruas, quebrando a indiferença e o anonimato associadas aos grandes espaços urbanos.

Ainda que seja essencialmente um repositório de fotografias tiradas em espaço público, essas poderão ser um ponto de partido para toda uma hermenêutica – atente-se no piscar de olho a uma certa intelectualidade – ou limitarem-se  a ocupar todo um post . Errado será, todavia, conceber este blogue como um local de excelência na arte de tirar fotografia: os meios técnicos que tenho à disposição não me deixariam fazer uma promessa dessas e a arte e engenho para tirar boas fotos também não estão no meu (diminuto) rol de competências.

Por último, uma ressalva: não há intenção de lançar qualquer debate sobre a diferença entre o vandalismo e a arte ou sobre qual o contexto em que deveria ser permitida uma apropriação do espaço público. Como qualquer cidadão, terei uma opinião minimamente fundamentada sobre o tema – como todo o cidadão português, tenho uma opinião fundamentada sobre todo e qualquer assunto, desde rendas de bilros até à resolução da crise da dívida – que inevitavelmente acabarei por explanar.

Gonçalo Gonçalves

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